À Meia-noite levarei sua Alma (1964)

Atualizado: Out 30

Zé do Caixão, a criatura nacional demasiadamente humana


Por André Santa Rosa



Zé do Caixão, um coveiro do interior de São Paulo. Uma figura perversa, que não é digna de empatia. Mas sua perversidade é justamente o excesso de si, o tanto que é demasiado humano e completamente entregue a imoralidade - também a liberdade - de ser lançar aos vícios humanos, nunca as virtudes. José Mojica Marins encenou por anos a criatura mais pop do horror brasileiro, para todos efeitos, elaborou o início de iconografia de horror brasileiro em vertigem de uma crise moral. Mas como falar dos clássicos? Não existe medida certa ou palavras que não soem repetidas. Busco um verdadeiro instinto - palavra tão cara para a personagem - de encontrar o elo entre a questão moral, o mau gosto e o tosco. O que primeiro me remete à figura estranha de Mojica, desde o primeiro momento que o conheci, de forma cômica em programas de auditório de TV e, anos depois, como jornalista, me deparei com o momento de noticiar sua morte.


Lançado em um data tão simbólica como 1964, início da Ditadura Militar, À Meia-noite levarei sua Alma é a primeira aparição de Zé do Caixão no cinema nacional. Dentro de um universo cristão de uma cidadezinha, o coveiro é um marginal entre os cidadãos. É Sexta-feira Santa e tudo que ele quer é comer carne, “nem que seja de gente”. Indo contra as convenções da religião cristã, Zé do Caixão é, antes de qualquer coisa, uma figura mundana, que tem a si próprio como divindade. Uma perspectiva que coloca não o humano, mas ele e sua perpetuação na terra como centro da existência. Contudo que seria a vontade mais natural da reprodução normativa senão um rito narcisístico? Seria muito leviano dizer que é um personagem simplesmente questionador das morais majoritárias nacionais, quando ele exprime toda misoginia e violência. Não é esta a sua questão. E sim essa zona cinza de representação de valores disruptivos e conservadores, utilizando o horror como espaço estético de investigação. O que pode ser muito potente se formos pensar em um cultura pop contemporânea baseada na relação mimética e empática como um instância de representações e exaltação do heroísmo unidimensional.


O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte?

É o fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue.

O que é o sangue? É a razão da existência.


Esse é o monólogo que abre o filme. Além de trazer a retórica em monólogo e os trejeitos icônicos do personagem em um de seus principais textos, a frase sintetiza bastante a moral por trás desse, que é a vanguarda de um monstro nacional. De maneira obsessiva Zé do Caixão procura a mulher perfeita para procriar e dar vida ao seu legado na terra. Essa ideia de continuidade de sangue, completamente eugênica, se difere da reprodução vampiresca sem o sexo normativo, trazendo uma visão completamente vulgar e brutal de reprodução. Primeiro não hesita em matar Lenita (Valéria Vasquez), sua mulher estéril. Em seguida seu melhor amigo Antônio (Nivaldo de Lima) para que enfim tenha sua noive Terezinha (Magda Mei).


Um diretor que é personagem. O monstro e sua própria criação, que surge a partir da mitologia de um pesadelo do cineasta, em que um vulto o arrasta para sua própria sepultura. Mojica constrói a relação simbólica de À meia-noite levarei sua alma com elementos muito familiares e primários do horror. Falo primário até num sentido infantil: a bruxa, a caveira e os caixões. Mas ao correr do filme, esse universo vai ganhando contornos mais brutais, não menos calhorda, contudo, ganha uma certa gravidade e violência encenada. Justamente nesse momento de gravidade, vemos um personagem que não é um mal pleno, mas um sujeito que acaba assombrado por suas escolhas – entre aparições fantasmagóricas e a loucura iminente do seu fim.




Na maioria das cenas, o filme tenta manter uma simplicidade quase instintiva e inocente da forma de se fazer cinema, com uma linearidade narrativa e ritmo crescente de gravidade. A maioria dos atores eram do teatro e improvisaram boa parte do texto, que sempre se modificava na mão de Mojica em set. É um filme também simples em sua relação com espaço. São basicamente três cenários: um bar, onde Zé traz desgraça pros moradores, a casa dele e um cemitério. Tudo tem uma cara extremamente arcaica, popular, ao mesmo tempo, autoral. Ao fim um plano mais duradouro, sem cortes, que acompanha de forma desgastante a perseguição derradeira de Zé e sua ruína, que é sua ambição existencial.


Pela crítica da época, o filme ocupou o local - cá entre nós, esperado - do tosco e do mal gosto. De fato, esses são dois adjetivos que lhe caem bem. Porém houve uma grande incompreensão por parte da crítica sobre o que se desenhava ali, em termos de vanguarda e criação de um cinema de gênero nacional. É a criatura que perturba os bons-moços dos botecos da periferia paulistana, sendo o homem mais rico das redondezas, que desdenha da procissão e tropeça entre despachos. Figura tão mal-acabada e tão brasileira, fruto de um cinema de relações estritas com o amadorismo, de atores desconhecidos e interpretações toscas. E justamente por ser amador, se relaciona com tantas gerações de fãs, com todos mundo que fantasia sobre uma arte nacional inventiva e livre.


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