1917 (2019)

Atualizado: Ago 30

Por André Santa Rosa


O filme 1917 é, em dois aspectos, sobre a virtude e força necessárias para completar uma árdua missão. O primeiro diz respeito à diegese, a missão homérica dada aos soldados. Ao mesmo tempo, é impossível se prender apenas ao narrativo quando existe uma excelência técnica por trás: a obra de Sam Mendes foi toda filmada e montada para parecer um único longo plano sequência. Aqui a técnica não aparece como enfeite ou superficialidade, mas se acopla à narrativa e cria um clima constante de correria, falta de ar e perigo - elementos justos para descrever um filme que retrata os horrores da guerra.


A história é simples e de certa forma já vimos muitas missões impossíveis de guerra. Esse gênero fílmico se tornou um cacoete norte-americano, sempre como um pretexto para montar um playground de homens heroicos e armados. No caso de 1917, não há glamour e o que há de heroísmo se perde na grandeza do caos. A história fala sobre dois soldados britânicos, Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman). Após a descoberta de uma armadilha que mataria um batalhão de 1,6 mil soldados, inclusive o irmão de Blake, os jovens cabos ficam encarregados de atravessar o território inimigo para alerta de armadilha e impedir o avanço das tropas.


Pelo jeito como é filmado e editado, o longa rememora ao espectador muito mais da experiência do videogame, em jogos como Call of duty ou Battlefield, do que outros filmes - desde que deixemos de lado a relação de proatividade e intervenção existente nos jogos. Mas a sensação de continuidade, relação espacial e o que a câmera nos mostra permitem esse paralelo, o mesmo se pensarmos na progressão com que os personagens se movem e interagem com o espaço. Em 1917, somos transportados para paisagens pós-apocalípticas: lama, árvores caídas e corpos espalhados. Os intermináveis campos desolados remontam uma atmosfera sombria e visceral, que é explorada a partir dos recursos da câmera, sempre contrastando a pequenez e vulnerabilidade dos corpos dos soldados com o ambiente.


O longa 1917 é sobre entrega. Mas de certa maneira se apoia em um fazer arte que pode ser chamado de virtuoso. O que para muitos pode ser antiquado, certamente terá apelo para alguns membros da Academia, premiação da qual o filme, indicado em dez categorias, tem caminho pavimentado para as mais técnicas. A obra foi vencedora como filme de drama, direção e fotografia no Globo de Ouro e se consagrou também na premiação do Sindicato dos Produtores. Vale ressaltar que não só da direção de Sam Mendes vive 1917, mas também do trabalho de fotografia do grande Roger Deakins, que ganhou o Oscar por Blade runner 2049, em 2018, depois de bater na trave 13 vezes.


Ao fim do filme, Mendes agradece ao avô, que participou da Primeira Guerra Mundial e contou a história. Com um making off viral na internet, a campanha de divulgação do longa se baseia muito nos seus artifícios técnicos, o que, em geral, não é necessariamente sinônimo de qualidade. Neste caso, no entanto, fica difícil negar o triunfo da técnica e seus efeitos.


Está no material de 1917 que a Universal distribuiu à imprensa: “Que fique bem claro que 1917 não  foi filmado com uma tomada só, mas com uma série de tomadas longas sem cortes que puderam ser  ligadas de uma forma natural que dão a impressão de ser uma tomada contínua. Como não há cortes nas cenas, o espectador, assim como os dois soldados protagonistas, não tem a chance de se desconectar da missão que tem à sua frente.


Embora Sam Mendes tenha feito a cena de abertura de 007 contra Spectre em tomada contínua, fazer um filme inteiro dessa maneira foi uma experiência nova para todos, inclusive o diretor. Ele diz: “Nunca me vi em uma situação em que começássemos a filmar na segunda-feira e eu tivesse certeza absoluta de que o material filmado na segunda-feira seria usado no filme.”

©2019 by Notas críticas