A Sombra do Pai (2018)

Atualizado: Ago 30

Por André Santa Rosa.

21 de maio de 2019.



A inocência, pureza e candura são comumente atribuída às crianças a partir de uma lógica muito ligada ao corpo virginal, batizado e livre do pecado, que não pode se confessar ainda pois não tem consciência de erros. Sintomas claros de um imaginário católico. O “maldito” envolvendo crianças já foi, por muitas vezes, a subversão desses preceitos, simbolicamente ou narrativamente rasurados em tantos filmes de terror. As gêmeas em “O Iluminado” (1980), o personagem David em “A Aldeia dos Amaldiçoados” (1960), Rhoda Penmark em “A Tara Maldita” (1956) são exemplos dessa rasura, que no que diz respeito a seus comportamentos e ações/reações, segue um limiar, um espectro que transita entre entre o angelical e o maldito, a pureza e a malícia, o esperado e o subversivo.


Pode-se dizer que Dalva (Nina Medeiros) é um caso dessas personagens: peculiar, misteriosa, que por vezes encena o roteiro da criança, mas também do macabro comum ao gótico. Dalva passa noites assistindo filmes como “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) e “O Cemitério Maldito” (1989), mas sem reação de medo algum, apenas uma obsessão totalmente passional pelas figuras que conseguem voltar a vida. A personagem mora com Jorge (Júlio Machados), seu pai – figura “Romeriana se pensarmos ao aspecto político do trabalhador, ser “apolítico”, alienado pelo capitalismo de sua razão e emoções, transmutado e "zumbificado" em horror – e sua tia, Cristina, crente em rituais populares e misticismo para alcançar seus objetivos – que nesse caso, é conseguir um marido. O filme se desenvolve a partir dos poderes “sobrenaturais” de Dalva, porém ao tentar um terror de grife, são empregadas sugestões e ideias vagas de forma que o filme e suas personagens não saem do “raso”.


As multidimensionalidades não existem. Os diálogos e ações parecem sempre caminhar para uma construção discursiva, a ponto das reações vagarem até a indiferença. O discurso se volta sempre para os traumas pessoais, sobre fantasmas do passado que não foram resolvidos, mas não faz a “ferida doer”. Mesmo colocado como um filme de terror (ou um filme que nega o terror, mas cinicamente tenta de toda forma alcançá-lo), tudo soa extremamente irreal. O que temos e o que vemos são caricaturas planas, que prezam por uma peculiaridade e estranheza discursiva e estética, mas é dado a elas um espaço muito mínimo, como doses homeopáticas de algo que não chega a transbordar.


Se pensa muito pouco no filme e muito mais nas instâncias estéticas que ele alcança. Ele prefere ser apático diante de uma possível tomada de direção para o caos das possibilidades que orbitam ao seu redor. Existem, inclusive, cenas que se repetem nas referências e repertórios da diretora. Vide a cena do aniversário deprimente, tal qual o curta A Mão Que Afaga (2012), também de Gabriela Amaral Almeida. Sufocado, o filme não acontece. Falta criatividade, faltam ideias e sobram adereços estéticos e discursivos.

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