Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018) | Sobre corpo e ausência

Atualizado: Ago 30

Por Alice Mota.

06 de maio de 2019.




O filme de Renée Nader Messora e João Salaviza fez com que eu me perdesse em pensamentos sobre o Luto. Talvez por isso esse texto ainda não tenha saído – pensei bastante em como poderia criticar algo que me transporta a outro lugar e me faz divagar sobre coisas que não cabem no nosso conhecimento. É isso o que Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2019) faz. No ritmo do luto, do lidar com a perda, acompanhamos de maneira honesta e íntima a maneira como se encarnam os rastros da morte, na aldeia indígena de Aldeia Branca.


No longa passamos por momentos sensíveis quanto à memória da tribo, que reitera a condição de uma sociedade pré-cristã diante de um mundo colonizado. É como se fosse um mundo isolado, um espaço à parte, e nós, que tentamos unificar a língua e nos tornamos arrogantes diante da cultura indígena, não estivéssemos preparados para lidar com os rituais, conhecimento e transcendência da tribo Krahô. E de fato, não estamos.


Com a colonização, o Homem Branco trouxe aos povos nativos suas pragas, suas doenças, de forma que a medicina da própria tribo deixou de ser suficiente para lidar com as enfermidades. Nem por isso deixa de ser um estranhamento o momento em que Ihjãc (que na cidade atende pelo nome de Henrique) procura o Sistema Único de Saúde em busca de tratamento. Ele leva sintomas desconhecidos à maneira fragmentada e cartesiana como se organiza a medicina ocidental, que parece falhar ao tentar compreender a situação do jovem, por sua vez, angustiado com suas responsabilidades laborais e espirituais na tribo. Nesse ponto o filme consegue passar de forma complexa os sentimentos de seu protagonista: como dissociar corpo e mente?


A cena do SUS, com seu tom de crítica parece destoar um pouco do resto do filme, que até então relembrava o homem branco e o genocídio indígena pelo ponto de vista da memória da Aldeia (no sentido de uma memória local e da trajetória da tribo), que me parece mais sutil. O longa já é lançado com o novo governo e de cara leva o símbolo “Pátria Amada Brasil”, e diante de um governo com ideais que ameaçam a existência da própria aldeia, figurativamente Ihjãc sequer teria o abrigo que recebeu por dias – ainda que carregado com burocracias que não cabem ao contexto cultural dele. Apesar de uma crítica válida quanto à forma como o programa é conduzido e acessado, me parece que o contexto atual de desmontes requer mais uma defesa ao SUS. Assim, pensando o filme diante do seu contexto, a critica soa muito como se “o tiro tivesse saído pela culatra”.


O filme deixa a tribo respirar em suas práticas e cotidiano narrados através de toda uma temporalidade que os retrata de forma honesta. Nos colocamos nos nossos lugares para acompanhar o ritmo e os rituais dos índios Krahô, especialmente a festa de fim do luto, onde a câmera permanece parada, para o tempo que for necessário. Para a tribo, o ritual liberta as almas e devolve os vivos à rotina: o luto aqui é também jornada pela libertação da presença – não física – de seu ente querido. Com a perda do seu pai, Ihjãc lida com a ausência e com as questões transcendentais particulares da sua cultura, que para alguém não familiarizado com as tradições da tribo, não fazem sentido. E elas são deixadas assim mesmo, em aberto para que nós sejamos capturados por um sentimento de ausência que não seria compreendido no caixão fechado e roupas pretas, nas missas de sétimo dia e aniversário de morte.

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