Destacamento Blood (2020)

Atualizado: Ago 30

Por: André Santa Rosa

29/08/2020



Soldados negros expunham suas vidas no Vietnã, enquanto os Estados Unidos se contorciam em meio à luta pelos direitos civis e repressão policial. A guerra tem um rosto, mas qual é o rosto da guerra que conhecemos? Ou, mesmo que tratando do tosco patriotismo norte-americano, quem assume esse protagonismo? Spike Lee certamente não acredita nestes heróis arquetípicos. Em seu Destacamento Blood, muito maior é sua vocação por implodir essas narrativas, mostrar algumas faces e narrativas apagadas dos cânones. Quando tratamos de hegemonia ou cânones não falamos apenas na história como disciplina, mas também da própria história do cinema de guerra como agência do nosso imaginário. O longa que deixou de ser lançado nos cinemas, por conta da pandemia do coronavírus, saiu esse ano pela Netflix e foi o último filme do ator Chadwick Boseman - esse texto é, de algumas maneiras, uma homenagem.


Acompanhando o regresso de um grupo de veteranos de guerra negros que lutaram em 1971 no Vietnã, Destacamento tem sua fundação nas relações e na “brodagem” do grupo. Os quatro retornam para o país em busca de ouro físico, mas também a fim de ressignificar o passado: encontrar os restos mortais de um amigo do grupo que faleceu na batalha (Norman, vivido por Chadwick Boseman). Norman é a corporificação de uma lenda para eles, um elo perdido entre o passado e o presente de modificações, tanto nos corpos dos protagonistas, quanto na paisagem ultra-capitalista do Vietnã. Norman é uma uma memória romântica, o “nosso Malcolm e nosso Martin”, eles dizem.


Ao serem recebidos no país, um telão exibe o título de abertura de Apocalypse now (1979), clássico de Francis Ford Coppola, em uma revisitação cinematográfica e da própria jornada de Lee dentro deste território, que é paisagem recorrente do gênero de guerra hollywoodiano. E o filme, de fato, se articula também através das irônias, dos clichês e da rasura com vocação de um novo cinema negro que Lee sempre fez - no musical, filme policial, cinebiografia.



Para além dos flashbacks e da reminiscência magnética de Norman, o filme articula aos clichês uma trama dissenso, que nos é apresentada logo no início do filme, quando Paul, um dos veteranos, admite que votou no presidente Donald Trump. Longe de qualquer tentativa maniqueísta, o personagem é ápice do filme, um grito feroz e articulável selva adentro. Inclusive, seu monólogo tem a cara dos grandes personagens de Lee: uma presença gigante atravessada por muita culpa e raiva. É um tipo de personagem raro no cinema, principalmente quando estamos todos entrincheirados na necessidade de apontar o dedo na cara uns dos outros, mas que diretores como Spike Lee conseguem colocar em tela.

Imagens de arquivos, filmagens, o rosto de um soldado negro esquecido, Destacamento Blood tem vislumbres documentais. Reiterando - aqui de forma bastante pedagógica - que o tensionamento do filme se estende através da ficção, ao mesmo tempo, em um senso de narrativa real mais clássica. Muitas vezes esses momentos se alongam, dão uma quebra no ritmo do filme e poderiam ser mais bem administrados. Mas ainda que trabalhe a questão nacional e racial em todo seu potencial, o lado vietnamita e a questão colonial norte-americanas soam mais conciliáveis dentro da narrativa.

Entre memória e vida, ficção e documental, passado e presente, Spike Lee consegue montar um filme que permite a seus atores brilharem, além de dar continuidade à sua articulação de disputas simbólicas e mobilizações através da cultura pop e do cinema. Por mais pedagógico que por vezes o filme seja, Destacamento Blood, ao mesmo tempo que estanca, abre ainda mais a ferida.

©2019 by Notas críticas