Dor e Glória (2019) | O Último Suspiro do Diretor Vermelho

Atualizado: Ago 30

Por Caio Palmeira*.

20 de junho de 2019.



Como uma forma de finalizar sua trilogia “pseudo-autobiográfica”, iniciada com “A Lei do Desejo” (1987), Almodóvar nos apresenta mais um filme imerso em sua história de vida, carregada de diálogos reflexivos, relações maternas e referências estéticas. Assim como em sucessos antigos do diretor, “Dor e Glória” (2019) é estrelado por Antonio Banderas, Penélope Cruz, e nos apresenta uma outra visão da cantora (agora também atriz) Rosalía. O filme conta a história de Salvador (Antonio Banderas), um famoso diretor de cinema que já não parece mais tão interessado em mostrar seu trabalho para o mundo, apesar de continuar escrevendo e desenvolvendo trabalhos em casa. Salvador vive atormentado por dores físicas e psicológicas que influenciam de forma direta sua produtividade, e durante a película somos apresentados a cada uma delas que o atingem e como ele lida com isso: desde o abuso de heroína à abertura de feridas ainda não cicatrizadas.


A trama se desenrola quando ele decide revisitar um antigo amigo e colega de trabalho, que o ajudou na produção de seu filme mais famoso, porém havia anos que eles não se encontravam devido aos problemas que tiveram no passado. O longa então narra esse reencontro de Salvador e Alberto (Asier Etxeandia) e desenvolve a relação dos dois, baseada em drogas e discussões, enquanto corta para trechos que mostram a infância sofrida de Salvador na periferia espanhola. No início do filme somos apresentados a uma cena que mostra Salvador ainda criança, observando sua mãe, Jacinta (Penélope Cruz), lavar os lençóis no rio juntamente com outras mulheres. Nesta cena também somos apresentados à personagem interpretada por Rosalía, que puxa um canto melódico e logo contagia suas colegas. Vemos aqui uma ideia genial de Almodóvar de utilizar um atual ícone espanhol em ascensão e aproveitar seu ótimo potencial vocal para compor a cena, que se torna uma das mais bonitas e representativas do filme.


No decorrer do longa-metragem, Almodóvar busca desenvolver sua infância e criar paralelos com o personagem de Salvador mais velho, mostrando a fonte de toda as inspirações que o diretor de cinema “aposentado” tem ou já teve, e como isso influenciou nas suas obras. Aqui temos acesso a “várias primeiras vezes” e como elas foram importantes na vida do pequeno Salvador, desde a primeira vez em que ele cantou, a primeira vez que ele se apaixonou e também a primeira vez em que sentiu desejos eróticos por outro homem e descobriu sua homossexualidade – que é sutilmente explorada no final do filme com a chegada do personagem Federico, interpretado pelo ator argentino Leonardo Sbaraglia.


Em “Dor e Glória”, Pedro Almodóvar nos presenteia com um trabalho extremamente sensível, no qual nos mostra vários pontos de sua vida pessoal e como isso afetou sua carreira como diretor de cinema. No filme aparecem semelhanças autobiográficas entre a história de Almodóvar e a história do diretor Salvador, desde a configuração do apartamento até as nuances artísticas presentes no cartaz do filme fictício. Com uma trilha sonora flamenca e tradicionalmente espanhola, a musicalidade encaixa em perfeita coerência com o longa. O diretor também nos mostra cenas maternas muito sensíveis, interpretadas pela premiada e calejada “mãe de Almodóvar” Penélope Cruz, além de, é claro, deixar sua marca registrada na paleta de cores do filmes, sempre muito vermelho e forte, compondo um formato almodovariano já conhecido. Dor e Glória é um trabalho muito bonito e nos conta os altos e baixos da vida de um diretor de cinema, do princípio ao fim.


* Caio é estudante de publicidade na ESPM e atualmente estuda cinema em Madrid, na Universidad Nebrija

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