Era uma vez em... Hollywood (2019) | Quentin Tarantino reescreve Hollywood

Atualizado: Ago 30

Por André Santa Rosa.

25 de agosto de 2019.



Quentin Tarantino, que tem entre sua filmografia filmes de grande popularidade como Pulp Fiction (1994) e Bastardos Inglórios (2009), é um dos nomes mais reconhecidos da sétima arte contemporânea. Em seu nono filme, presta não só uma homenagem nostálgica ao seu próprio cinema e a indústria hollywoodiana, mas também cria uma verdadeira carta de amor aos mitos e símbolos da cultura norte-americana. Era uma vez em... Hollywood ambienta-se na Los Angeles do fim da década de 1960, em meio ao auge do cinema de gênero, ídolos e lisergia.


Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator que interpreta um cowboy na série de TV Bounty law. Cliff Booth (Brad Pitt) é seu dublê e “faz-tudo”. Os dois personagens, ambos ficcionais, protagonizam uma fábula hollywoodiana de Tarantino, que se constrói a partir da história do culto da Família Manson e da obsessão californiana pelos signos da cultura pop.


Em uma mistura de ficção e acontecimentos reais, o diretor brinca com o imaginário de Los Angeles. O fio condutor da história segue por dois pontos centrais. Um deles é a narrativa das mais clássicas da indústria americana: a decadência dos jovens e talentosos atores e atrizes - nesse caso, a de Rick Dalton. Em uma versão pateta e humorada do drama vivido por Norma Desmond em Crepúsculo dos Deuses (1950), Rick é contagiado pelo medo do ostracismo e a chance de se ver como mais um objeto da produção em larga escala americana que, enfim, saiu de linha. O segundo fio condutor é baseado em fatos, com Margot Robbie interpretando o papel da atriz Sharon Tate, e Rafal Zawierucha na pele do diretor Roman Polanski (de O bebê de Rosemary). No filme, o casal vai morar junto, tornando-se vizinho de Rick.


Em 1969, Los Angeles vivia o auge de seu glamour e efervescência: estrelas de cinema, premières, contraculturas e hippies por toda parte. Um dos fenômenos mais bizarros da história americana, e que assombrou muito os jovens na época, foi o culto liderado por Charles Manson. Ele criou uma comunidade de seguidores que habitava o Spahn Ranch, formada em sua maioria por jovens com problemas emocionais, que guiados pela LSD, acreditavam que Charles era a reencarnação de Jesus Cristo. Entre os episódios icônicos da história real de LA, existe o assassinato de Sharon Tate por parte de membros da Família Manson. Essa história é um fantasma que ronda o filme, sempre à espreita, como forma de tensão e ansiedade. Uma imagem intensa que é aguardada e pode surgir a qualquer momento, que é bem instigada pela construção do roteiro do diretor.


Leonardo Dicaprio e Brad Pitt estão muito bem no longa, e se complementam como o dublê durão de passado criminoso e o ator que interpreta o cowboy, que claramente precisa de tutela, e é de personalidade altamente sensível e preocupada. A parceria marca um longa com novo ritmo nas obras do diretor. Era uma vez em... Hollywood é um filme que tem seus acontecimentos bem espaçados, nada de reviravoltas a cada 30 minutos, com tudo em seu lugar. Tarantino mostra maturidade ao conduzir uma história que se baseia no dia a dia e diálogos de seus personagens. Apesar de apelar para planos longos e sequências com pouco acontecimento, o filme é coroado com um clímax final ultraviolento, marca registrada do autor.


Também vale remontar algumas polêmicas que foram geradas após seu lançamento, no Festival de Cannes, que podem ser sentidas nas telonas. Uma delas é quanto ao espaço destinado às falas das mulheres. Sharon está presente no filme muito mais como a figura da atriz e menos como uma personagem ativa. Outra polêmica foi por parte da representação de Bruce Lee, interpretado por Mike Moh. Segundo a filha de Bruce, “foi muito desconfortável ir ao cinema e ouvir as pessoas rindo” de seu pai, que no longa é ridicularizado, sendo retratado como um ator extremamente arrogante e com seus movimentos de luta extremamente "afetados".


Quentin Tarantino usa e abusa dos ícones e símbolos de uma Hollywood em seus tempos áureos. Seja dando sua leitura de atores clássicos ou “editando” umas das histórias mais sombrias da cidade, que é o centro do entretenimento mundial. Ao final do filme, mesmo criando uma realidade banhada por sangue, o sentimento é que as coisas acabam bem. Afinal, a ficção, por mais que seja violenta, soa menos brutal do que a realidade do filme. Uma dimensão em que Sharon Tate tem um destino diferente parece algo bonito de se desejar depois de tudo que sabemos sobre como aconteceu em realidade. Ao rasurar a história de hollywood, Quentin Tarantino não só cria um conto, mas reafirma todo seu poderio como criador. Ele já escreveu seu nome na história de Hollywood, por que não reescrever a própria história de Hollywood?


Nota: ★★★

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