ESPECIAL CURTAS: Notas sobre "Criar as Leis"

Atualizado: Ago 30

*A mostra Criar as Leis foi assistida no Janela Internacional de Cinema, no cinema São Luís.


Quebramar, Cris Lyra (SP, 2019, 27’, DCP)

Para Todas as Moças, Castiel Vitorino Brasileiro (ES, 2019, 3’, DCP)

Sete Anos em Maio, Affonso Uchôa (MG, 2019, 42′, DCP)


Por André Santa Rosa | Editado por Alice Mota.

10/11/2019


Na sessão Criar as Leis, os curtas brasileiros pensam, de certa forma, o narrar a si mesmo. Ou melhor, pensam as nossas possíveis ficcionalização, dentro de múltiplas situações de opressão, do trauma e das cicatrizes de toda uma vida, expostas a precariedades raciais, sexuais e de gênero. Em Criar as Leis, cada microcosmo afetivo apresenta a ideia do narrar a si como um ato político emancipatório e de sobrevivência.



Quebramar - Cris Lyra

  • Em Quebramar a partir de um viagem para a praia, um grupo de mulheres lésbicas compartilham suas vivências e memórias, em uma espécie de exílio ancestral afetivo.

  • Em um convite para a história através dos relatos de si, em suas raízes, o curta traz um texto que de certa forma apresenta apego a uma ideia muito cristalizada de natural, longe de uma instância encenada, mas no campo da valorização de atributos físicos, identitários e quase biológicos.

  • A mão que se põe em cima da fenda da pedra parece uma boa imagem para pensar o curta: aquelas sociabilidades lésbicas, sendo postas ali como primais, como resultado de um campo afetivo primordial àqueles corpos.



Para todas as moças - Castiel Vitorino

  • Para todas as moças é uma oração queer.

  • Filme que esteticamente me atrai por uma estética muito lo-fi e DIY, soa extremamente autêntico, independente e pessoal. Nele é narrada/ficcionalizada uma vivência travesti, que se mune da força de uma pomba gira.

  • O curta tem uma pegada mais experimental, o que nos permite perseguir seus gestos cinematográficos, que apresentam uma intensidade muito ímpar se colocando ao mundo na beira de suas mutações e poderes místicos.



Sete anos em Maio - Affonso Uchôa

  • Um monólogo potente expõe as fraturas de uma vida precária.

  • O diretor filma seu co-roteirista Rafael dos Santos Rocha, que narra os episódios mais traumáticos de sua vida através de um monólogo que o tempo todo expõe de forma poderosa as vulnerabilidades de um vida negra, jovem e periférica.

  • O filme se sustentar no poder do relato e na sua capacidade de transmitir uma experiência potente. Sentado em frente a uma fogueira, junto a um desconhecido que também foi vítima de violências semelhantes, Affonso monta uma história cujo o dispositivo cênico tem como verve o documentário, mas ao mesmo tempo transita pela ficção.

  • Esteticamente falando o filme se localiza bem nessa nova filmografia de realizadores mineiros, como Baronesa (2017) e Temporada (2018), pois ao passo que articulam uma autenticidade documental, são capazes de produzir narrativas elaboradas, esteticamente sofisticas e tendo a periferia como objeto central.

  • O curta mais potente que assisti nesse Janela. Certamente aponta para um qualidade na produção feita em Minas Gerais, além de tocar em temas muito sensíveis à nossa realidade a partir da primeira pessoa.

©2019 by Notas críticas