[especial] Wakanda está em festa

Por Giovanna Carneiro.

29/08/2020



Sempre que alguma pessoa realiza algo marcante em vida, a sua morte torna-se um legado. Não poderia ser diferente com o ator que interpretou o primeiro herói negro da Marvel. Durante toda sua carreira, Chadwick Boseman soube da importância de representar o povo negro e honrou a sua missão.


Sua jornada em representar a trajetória de personagens negros começou cedo. Em 2013, Chadwick interpretou o jogador de beisebol Jackie Robinson, que em 1947 se tornou o primeiro negro a entrar para um time da principal Major League Baseball. Um ano depois, o ator protagonizou o filme sobre a vida do cantor James Brown, "Get on Up: A História de James Brown". Pouco antes de começar a interpretar o Pantera Negra, em 2016, deu vida ao juiz Thurgood Marshall, primeiro membro negro da Suprema Corte americana, em "Marshall: Igualdade e Justiça".


Em suas falas, Chadwick sempre fez questão de exaltar a importância de ter atores e atrizes negras no cinema e destacou a importância da representatividade de seus personagens. Sua consagração como uma das maiores referências para a juventude negra veio com o papel de T’Challa.


Lançado em 2018, Pantera Negra está longe de ser um filme de super-herói comum. Assistir a história de Wakanda é resgatar a conexão com o berço da cultura negra, a África, e ao mesmo tempo, imaginar uma utopia afrofuturista onde o nosso aquilombamento é possível e onde nossas riquezas e valores sejam reconhecidos.


Não é à toa que perder Chadwick Boseman tão prematuramente cause tanta dor às pessoas negras, afinal, quando uma pessoa negra morre é como se perdêssemos alguém da família – e essa é uma das lições que T’Challa nos ensinou ao proferir a famosa frase “Wakanda Forever”.


O processo violento da diáspora negra fez com que a morte de homens e mulheres pretas fosse algo corriqueiro. Morremos de raiva, morremos de depressão, morremos de fome, morremos violentados pela polícia e pelo Estado, morremos tentando vivenciar a nossa força de maneira soberana. Por isso, para nós, a morte não pode ser em vão, não pode ser apenas uma dor, ela tem significado de continuidade.


Os nossos heróis de verdade são pessoas negras comuns que passaram por essa terra e se tornaram uma grande referência de coragem e luta; a nossa ancestralidade nos conforta e nos guia para um caminho onde nossos corpos e nossa vida está além da dor. Chadwick fez sua passagem sabendo disso e se tornou um novo guia para a nova geração de um povo que tem muito talento a oferecer.


Agora, milhares de crianças negras poderão comprar uma fantasia para usar no carnaval ou no Hallowen, cruzar os punhos e imaginar que existe um lugar onde não é preciso sentir medo por ter a pele escura, o cabelo crespo e os lábios grossos. A morte de Chadwick Boseman, assim como a morte de todas as pessoas pretas, não é um fim, é o alcance do posto máximo da realeza é a eternidade de um legado que é imortal. Wakanda está em festa porque mais um rei atingiu a glória.


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