Estou pensando em acabar com tudo (2020)


Por André Santa Rosa*

08/07/2020


Você desce o porão da casa dos pais do seu namorado e encontra suas pinturas em quadros, porém assinadas por ele. A confusão é que você não sabe mais onde você termina e onde ele começa: sua relação - e sua própria existência - é fruto de projeções e narrativas limitantes. É assim que Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Anomalisa) dá o ponta-pé para o desenrolar de ‘Estou pensando em acabar com tudo’ (i’m thinking of ending things). Seu longa tem um enredo construído de forma atemporal e espaço irreal, em fluxo. Também cabem aqui os termos gastos absurdo e surreal, em que Jake (Jesse Plemons) leva sua namorada (Jessie Buckley) para conhecer seus pais (Toni Colette e David Thewlis). O filme é baseado livro homônimo de Iain Reid e foi lançado pela Netflix.


Pois bem, um dos nomes responsáveis por cristalizar a figura da manic pixie dream girl apresenta sua mea-culpa. Uma personagem sem nome, que no porão da casa do namorado acha suas pinturas assinadas com o nome dele, dentre assumir suas narrativas e se confundida com ele em uma fotografia de infância. Se a manic pixie dream girl é justamente uma personagem construída como uma projeção dos desejos de um personagem masculino ‘desajustado’, a personagem de ‘Estou pensando em acabar com tudo’ possui uma forma muito forma caótica e “crítica” de pensar as configurações e reconfigurações do desejo de Jake. É uma forma super autorreferente e possivelmente ególatra de implodir uma ficcionalização tão impulsionada pelo trabalho do seu autor.


Justamente por ser contada em forma de fluxo e de situações que afundam cada vez mais o estado das narrativas e do relacionamento dos dois, não custou para vermos os primeiros “estou pensando em acabar com tudo explicação” nos resultados do Google ou sugestões do Youtube. Charlie Kaufman, sem dar um tiro no próprio pé, deixa seu filme aberto a possibilidades interpretativas - ao passo que, com esse tipo de declaração, valida os cacoetes de leitura crítica de diretores como Nolan e Aronofsky, sempre escavando significados. Isso não é um fenômeno que simplesmente orbita o filme, mas parece fazer parte de um próprio modo incorporado pelo texto do filme, que busca um absurdo nos gestos comuns de um encontro com a família do namorado. Sim, com o maior verniz de horror da A24, nos gestos ordinários e, de alguma maneira, esquisitos de Toni Colette; nas elipses e confusão. Mas também não é de grande característica da alegorias a sutileza das coisas, mas a forma como seus paralelos entre ideias e símbolos são costurados, poderiam sim ser mais sofisticadas.




Mais para o fim, o filme se articula também com gêneros fílmicos em apontamentos bem diretos: o filme de terror no drama familiar; a obsessão amorosa no musical. Delimitadamente ele encontra nesse escracho uma forma de criticar-se. Para Estou pensando em acabar com tudo, uma conversa de casal é a claustrofobia de um carro em uma nevasca e com parada estranhas, todas decididas de forma unilateral pelo homem. Isso diz bastante sobre o que Kaufman quer atacar, e de forma bem direta.


Boa parte de longa se estabelece através dos diálogos, que, como parece comum à amplitude de Kaufman, tentam abraçar o mundo. De uma conversa superficial sobre Sociedade do espetáculo até Uma mulher sob a influência, obra-prima de Cassavetes, o filme cose um comentário existencialista da cultura pop - de alguma forma até constrangedor -, mas que me parece muito interessado em rasurar os pontos controversos da reputação de seu autor. O que lhe custa bastante, por parecer a mesma inquietação de outros tantos autores e um vício no modo de contar histórias. Nisso ele é insuportavelmente contemporâneo: Kaufman se imagina a frente do espectador nos mistérios que ele mesmo elaborou.


*Texto com:

Leitura Rafael Duarte

Edição Alice Mota


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