Festival ECRÃ: Passou (2020)

Por: Daniel de Andrade Lima.

29/08/2020.



É tentador descrever Passou (2020), de Felipe André Silva, a partir de um léxico teatral. Constituído de poucas cenas, raros cortes e longos planos, o filme se desencadeia por uma série de solilóquios que se constituem a partir da presença de três personagens, que em poucos momentos compartilham o espaço solitário da tela. A partir de uma série de falas – que parecem meticulosamente escritas pela imaginação dramatúrgica de Felipe André – Pedro (interpretado por Pedro Toscano), Carlos (Carlos Eduardo Ferraz) e Fábio (Fábio Alves) falam de si para um outro que, sem responder, imaginamos (e por vezes vemos) estar lá. Se a abundância de solilóquios –amplamente utilizados nas tradições do teatro e da literatura e, mais timidamente, no cinema – associam rapidamente o filme ao teatro, existe algo no uso de uma série de artifícios audiovisuais que fazem de Passou uma obra especialmente interessante para pensar a encenação cinematográfica.


No filme, Fábio, Pedro e Carlos desenham um tipo de triangulação (talvez romântica, certamente afetiva) da qual vemos um, talvez dois, vértices por vez. A cada cena, um ou outro personagem aparece, aparatando em diferentes tempos e no mesmo espaço: um cowork (famoso) do centro do Recife. Assim, os três personagens se alternam em visibilidade, reivindicando nossa atenção em cada momento de privilégio visual. Vemos Pedro trabalhar ao computador, ter seu plano gentilmente invadido por Fábio, e beijar-lhe. Vemos Fábio contar de um encontro de determinado passado, enquadrado sozinho, mas referindo-se recorrentemente a alguém logo além do campo – que o escuta, talvez atentamente. Vemos Carlos retomar um relacionamento passado, servir-se de bebida na geladeira, e elaborar situações passadas a partir de um olhar presente, enquanto compartilha um cigarro que vai e vem por uma mão que afirma a presença de um interlocutor. Todas as cenas – que poderiam se passar indefinidamente no tempo – se especificam com o prosseguimento da montagem e marcado por comentários de algum tipo de narrador, que intitula e situa cada cena. A passagem de tempo, de mudanças de interlocutores e da narrativa, assim, é fortemente explicitada por cartelas de letras brancas que se sobressaem ao quadro, enunciando uma nova cena, uma passagem de tempo, uma situação e os personagens ali envolvidos. Sabemos então quando Fábio fala a Pedro e, mesmo que não o diga, quando seu amor acaba. Sabemos também, quando a mão invade o quadro de Carlos, que é Pedro quem compartilha um cigarro, um ano depois da conversa com Fábio. Sabemos enfim, antes que aconteçam, que as coisas acontecerão ou que já aconteceram antes de se desenrolarem aos nossos olhos. De certa forma, testemunhamos os acontecimentos que, sabemos, acontecerão enquanto eles acontecem.


Nesse sentido, é bonito, em termos narrativos, que Felipe André opte por apresentar uma história a partir de aparições, de saltos no tempo mas não no espaço. Cada aparecer, ao seu modo, cuidadosamente delimita algum acontecimento, este momento em que as coisas se reorganizam ou se consolidam como diferentes do que eram antes. Enquanto os personagens elaboram sobre si e são testemunhados por nós, algo muda ou, ao menos, prenuncia uma mudança – e nós sabemos o que procuramos em cada transformação. Ainda assim, o testemunho que Passou nos convida a fazer é peculiar: as cenas longas podem tanto dar espaço a derivas para fora da tela, quanto para dentro dela. As falas, afinal, nos convidam à escuta e nos interpelam sobre como modulamos nossa atenção para o filme. Cada enquadramento nos revela algo sobre o cowork e sobre o tempo que incide sobre o espaço, sobre seus diferentes usos, objetos e paisagens. A cada plano – abolidos de contraplano – somos posicionados de maneira a ver uma fala que, ao mesmo tempo que se dirige a nós, se dirige a outro. Tem alguém ali, em algum lugar diegético, que escuta por nós. Assim, vemos os gestos, as mudanças de olhares, os percursos do corpo em cena e a coreografia que se desenha especialmente para a câmera, todos de maneira dilatada. Ao mesmo tempo, o extracampo nos afeta não por vozes – os outros quase não respondem, só escutam –, mas por ruídos: uma cadeira que range, um isqueiro que pisca, um passo que pisa, demarcando uma presença outra. Apesar da fala ser fundamental para o filme, assim, o ruído também o é. Da mesma maneira, o gesto também: um cigarro que vai e vem, um corpo que se derrama em uma sacada, uma dança longa demais para ser divertida. O palco cinematográfico de Passou se faz belamente por usos diversos, excessos de duração, variações de enquadramentos, ausências e sons.



Cada solilóquio – talvez possamos imaginá-los como recortes de diálogo – é fruto de uma maneira específica de encenar: de um momento no tempo narrativo, de um enquadramento, de uma maneira de performar o texto coreograficamente. A câmera e o microfone, dispositivos que capturam, e o cinema, dispositivo que faz aparecer, ambos sublinham como encenado o que poderia ser cotidiano. Quando vejo Fábio, Pedro e Carlos em cena, falando sobre suas vidas íntimas e encenando Passou, vejo personagens nos quais reconheço uma encenação e daí, em parte, me vejo. E me vejo não apenas por certa ideia de representatividade positiva homoafetiva – como tendem a demandar determinados cinemas LGBT –, mas porque os vejo como quem vê uma câmera que poderia esquadrinhar a mim ao enquadra-los. São brancos, de determinada classe média, colocados a partir de certos padrões de masculinidades homoafetivas, que, como eu, se querem criativos, se querem postulados a partir de determinada urbanidade, e se querem mutuamente. Quando os vejo, com gestos dilatados, pausas cuidadosamente executadas nos textos e em cenas dançadas de sexo, vejo uma encenação coreografada do que poderia ser eu e tantos outros.


Tal coreografia não pode ser total: a fala lenta e pausada me desloca de certo cotidiano recifense, a fotografia belamente iluminada cria um espaço que não habito (mas gostaria de habitar), e a própria possibilidade de falar e ser escutado por longos minutos de atenção são aspectos que não me deixam esquecer que o filme de Felipe André Silva não é simplesmente cotidiano. Pelo contrário: ele coreografa, dilata, enquadra e, nesse ato, fabula e deseja determinada maneira de estar no mundo. O testemunho que ele nos convida a fazer permite olhar tanto pelo reconhecimento, quanto pelo desconhecimento; pela familiaridade e pelo estranhamento. Suscita um modo de ver que, ao passo que se envolve, busca, procura e passeia pela tela, se configura como um gesto que é também de esquadrinhamento. Acredito que, como eu, outras pessoas também vejam em Passou uma possibilidade de ver, de esquadrinhar e de se deslocar, e, assim, de abrir um espaço de imaginação.


Por fim, vale ressaltar que talvez faça parte da experiência de ver Passou certo grau de especulação. Sabemos, afinal, desde o título, que existirá um futuro em Passou, que algo não está mais lá, mas estava antes. Assistir ao filme em meio a uma pandemia também configura um destino social, em que os encontros passam a se fazer em lugares mais ou menos íntimos. Se o filme se faz por recortes imaginados (no tempo, no espaço, na narrativa, nos gestos, nos reconhecimentos), tais recortes se configuram, todos, para mim, em algum lugar de um futuro que imagino. Essa imaginação é alavancada pela vida em apartamento, mas também por um tipo de projeção (minha), que opera entre o desejo, o estranhamento e o reconhecimento. O apartamento – o cowork – se faz como um espaço que pode ser qualquer lugar. Assim, ele se transforma, principalmente, pela mudança do dia e da noite, pelo tempo que salta, pelos ruídos que vazam, pelo trânsito das pessoas invisíveis e pelos encontros que ficaram; mas principalmente pelos que passaram.

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