Festival ECRÃ: Sertânia (2020)


Por André Santa Rosa

27/08/2020



Após pouco minutos de abertura, na aridez e vegetação rasteira, Sertânia nos apresenta as vertigens de um homem, que lentamente assistimos desfalecer. Como um oroboro, seu ponto de partida é seu fim. A história que conta as quedas livres e os delírios do jagunço Antão Jararaca, que, enquanto jorra sangue, desliza suave e áspero entre os fluxos de suas memórias, sua vida e como chegou àquele momento derradeiro. De forma não linear e a partir de territórios mistos entre ficcionalização de uma mente em colapso, o longa Sertânia, de Geraldo Sarno (Viramundo, 1965), é um exercício de repetições. É, também, um dos exercícios de tempo mais primorosos nos últimos anos do cinema brasileiro, em que somos espectadores de um homem a lembrar e esquecer, lentamente viver e morrer, ou como melhor define o filme em uma metáfora geográfica, um homem em movimento até a chegada na outra margem.


Partindo da miragem do fim de Antão - inclusive em um belo uso da sobreposição e dos movimentos de câmera - o filme nos convida reimaginar esse Sertão. É nesse delírio fugaz construído a partir dos jogos de claro e escuro da fotografia em preto e branco, como um tipo de fixação da xilogravura. Nessa construção visual interessantíssima estão algumas imagens que remontam, ainda de maneira amorfa, os mitos fundadores desta República. São imagens vorazes, como já muito apontado de contornos cinemanovistas, lembram também A hora e a vez de Augusto Matraga, com os paradoxos da mente se entrelaçando com a própria história brasileira. Trazendo Educação pela Pedra como uma referência, é aí que reside um valor muito cabralino: em Sertânia há algo de muito primordial a ser aprendido com aquela aridez, como algo que se aprende da pedra, um mineral tão simples e frio, mas que representa tantas sínteses primordiais. No contexto do filme, podemos justamente pensar esse poder de síntese em relação a formação cultural e social do Brasil. Aqui reside muito valor: pegar essa frieza da história épica e mesclar com a subjetividade do delírio.


Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.



Sertânia é um longa poderoso, feito aos 82 de Geraldo Sarno, que cria uma relação incrível entre a memória pessoal e coletiva. É interessante também pensar com um realizador longevo, que sempre esteve à margem dos cânones do cinema novo, revisita esse cinema e esse local sempre com a vocação de reescrevê-lo. E no filme, o diretor passa adiante e reverbera uma sedimentação histórica de êxodos e violências, mesmo que, hoje, Canudos esteja inundada e o sertão enfrente mudanças em sua paisagem. Esses signos aparecem mesmo em clichês, mas que são uma mobilização dessas imagens duras. Sertânia é a ficcionalização da história e a representação de um grande desacordo, construído no Brasil, com sua própria formação social e cultural. Que por fim nos fixa a frase: “Tem hora que só o cão pra acudir a gente”.


*Sertânia foi visto no Festival ECRÃ. A programação ficará disponível até o dia 30 de agosto no site: https://www.festivalecra.com.br/

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