Fim de festa (2020)

Atualizado: Ago 30

Por: André Santa Rosa



Quando Tatuagem, de Hilton Lacerda, foi lançado em 2013, assumiu rapidamente o status de um filme que se comunicava muito bem com o espírito de seu tempo. Uma carta de amor à liberdade, um lampejo de esperança em meio ao fim da tempestade: "No futuro, o amor e a liberdade serão como num filme" era a frase de divulgação que representava a poética do longa. Não à toa, em 2013, vivíamos num Brasil tido como o "país do futuro", com progressos econômicos e conquistas sociais. Sete anos depois, Fim de festa, a segunda ficção do diretor, chega aos cinemas amanhã com o mesmo zeitgeist de seu antecessor, reverberando o espírito de uma época em plena melancolia e ressaca.


Logo de início, um corpo nu sai das sombras e mostra-se sem vergonha, enquanto um homem de barba malfeita e olheiras observa já cansado. É quarta-feira de Cinzas. O homem é Breno (Irandhir Santos), um policial civil que teve as férias interrompidas pelo trabalho. A garota é Penha (Amanda Beça), sua sobrinha, que acorda após o caos e fervor do carnaval que passou com seu primo Breninho (Gustavo Patriota), filho de Breno, e os amigos Angelo (Leandro Villa) e Indira (Safira Moreira). Fim de festa expõe de início suas peças e apresenta um de seus principais motes, a relação geracional, que segue no filme como dois núcleos, geralmente em antítese.


O motivo da volta precoce de Breno foi o homicídio de uma turista francesa. O caso que o filme expõe foi inspirado na realidade, na morte da alemã Jennifer Kloker, de 22 anos, assassinada no carnaval de 2010, em São Lourenço da Mata, Região Metropolitana do Recife. Mesmo tendo a inspiração em um caso real, o filme - que levou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival do Rio - não expõe isso nem no início nem no fim. Para a produção do longa, a equipe conversou com jornalistas que cobriram o caso na época.



No núcleo da investigação, um dos pontos mais interessantes do filme é a atuação de Irandhir. Breno é um policial arquetípico ao estilo dos misteriosos investigadores de longas franceses dos anos 1950: atormentados por relações mal resolvidas, ao mesmo tempo que são guiados por uma bússola moral - ao estilo, por exemplo, de Jean-Pierre Melville, precursor espiritual da Nouvelle Vague. Não à toa, o título do quarto capítulo do filme se chama À bout de souffle, em referência a Acossado, longa de estreia de Jean-Luc Godard, que trata de uma perseguição policial. Além disso, a camada de “homão recifense” que Irandhir dá à atuação gera uma leitura muito interessante do arquétipo - mesmo dizendo estar “velho demais para o carnaval”, está sempre aproveitando para cantarolar ou batucar ritmos carnavalescos nas superfícies dos objetos em cena.


Já o núcleo dos jovens soa como uma reverberação da juventude anárquica de Tatuagem. Ainda que inebriados pela intensidade do carnaval, estão inseridos em um contexto conservador e de policiamento. E é justamente com eles que, em alguns momentos, o texto do filme perde completamente a sutileza, como na cena do topless na praia, que é meio deslocada e digna dos exageros dos famosos “textões de Facebook”. Existe uma ironia clara do filme com a relação entre política e o status da classe média branca de Breninho e Penha. Ainda que sujeito a regulações de seus corpos e liberdades, são em cenas mais sutis que o grupo propõe seu contrapeso da história, como a cena de Angelo no banheiro, por exemplo, que diferentemente da nudez muitas vezes pública de Tatuagem, expõe um corpo contido pelo espaço do box, mas ainda assim motivado pelo fervor da dança.



Outro destaque do longa vai para os sublimes interlúdios com poemas recitados por Miró da Muribeca, que abrem o filme e o início de cada capítulo. Também para os visuais do Dracma, podcast ficcional que se apresenta com uma espécie de jornalismo gonzo, anárquico, que entrega vários furos durante a trama, ao mesmo tempo que é malvisto por trazer informações de forma inconsequente. Também para as sonoridades do filme, feitas novamente pela parceria com o DJ Dolores, que produziu músicas com o gênero do brega-funk como protagonista.


Choque geracional talvez não seja a melhor forma de descrever os dois núcleos, mas, de certa maneira, pai e filho se espelham e se reconhecem, mesmo que estejam fraturados pelas suas diferenças de diálogos e vidas. Breno é um policial e em uma investigação se confronta com marcas de seus relacionamentos, porque, dentro da dinâmica do longa, a investigação é um pano de fundo para expor as afetividades e relações entre seus personagens. Talvez o maior problema seja a ineficiência do filme em costurar os dois núcleos ou aprofundar as relações através das interações dos personagens. Essas fraturas apontam para a própria “morgação” que é o Fim de festa, que aposta na certeza de que a catarse já passou.

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