Foi no Carnaval que Passou (2020)


Por Renatto Mendonça


O longa de estreia do cineasta pernambucano Léo Leite, de realização independente, não contou com o incentivo de programas de fomento e levou em torno de uma década para ser concluído. Informação importante de se levar em conta para balizar a valoração do arranjo esforço-resultado. A narrativa que, como o nome sugere, tem na experiência do carnaval seu eixo central de desenvolvimento, se subdivide em três momentos históricos ambientados em Recife e postos sob um viés geracional: avó, mãe e filho vivenciam a folia em face de sua juventude. Num esquema de autoficção, o diretor retoma uma jornada intimista dos sonhos, amores e repressões de seu recorte familiar projetados na fantasia carnavalesca.


Fora da esfera do ineditismo temático, ainda se teria todo um ambiente favorável para um fazer poético, reflexivo, estético e/ou crítico. Alguns problemas, no entanto, parecem impedir que a engrenagem do filme engate de maneira bem sucedida. Primeiramente ressalto o tom: cada departamento parece apontar para caminhos distintos, deixando seus aspectos gerais desconexos. A montagem não dialoga bem com o roteiro, que por sua vez não dialoga bem com a fotografia, que também não concatena de modo eficaz com a trilha sonora, e assim por diante.


Depois, temos os objetos discursivos do filme: a impressão que fica é a de que não só se tentou abraçar um mundo de críticas sociais, como o fez aportando-se em metáforas óbvias e outros clichês, desvelando de maneira superficial as especificidades de cada período histórico retratado –por vezes até subjugando ou tolhendo a capacidade dialética do espectador. Valendo-se do recorte setentista para exemplificá-lo, temos o encontro do casal em frente ao muro com o picho “Abaixo a Ditadura”, o assassinato engessado de um homem no pátio pelas forças militares ou o exaustivo uso do hino nacional em sua duração integral como contraponto para a sequência, em montagem paralela, do regozijo da mãe no mar e da tortura de seu namorado na época, dentro de uma sala escura.

Assim, notamos que alguns elementos são citados sem serem desenvolvidos, e ainda outros são entregues sem sutileza e de maneira muito direta. Apesar de seus noventa minutos de duração, o filme pareceu muito longo por asfixia: seu fôlego se esvaiu pela falta de consistência e profundidade dos conflitos. Temos uma profusão de cenas, atuações e texto apáticos e injustificados, salvo uma ou outra exceção.




A história se inicia com a avó Celeste, já idosa, revisitando suas memórias através de alguns objetos retirados de sua caixinha e termina com uma reunião familiar em sua casa. Celeste havia sido uma órfã criada por seu tio abusivo, vivendo uma rotina de agressões e humilhações. Impedida de conhecer o carnaval, acaba encontrando tal oportunidade quando da ausência de seu tio, e termina se apaixonando por um artista de rua. Este período, que se passa nos anos 50 e é retratado em preto e branco, conta com uma harmoniosa idealização fotográfica, assim como uma caracterização muito contundente. A direção de arte e figurino, aliás, é um dos aspectos que melhor funcionam em todo o filme.

No recorte contemporâneo, se desenha uma espécie de triângulo amoroso inspirado nos arquétipos herdados do clássico da Commedia Dell’Arte e incorporados ao imaginário carnavalesco mundo afora: Pierrot, Arlequim e Colombina. Isso é explicitado inclusive no batismo dos personagens: Pedro recebe em casa seu primo Quim que chega para passar o carnaval e, sem tomar ciência, ambos acabam se envolvendo com Carolina. Sublinho aqui alguns incômodos específicos, a saber: o ar publicitário das sequências que evocam o carnaval de rua e, mais ainda, uma perspectiva de carnaval demasiadamente romantizada (para não dizer higienizada), frequentemente recaindo a um tipo de humor forçado e heteronormativo – estranhamento ainda mais agravado com o beijo deslocado entre os primos no final do filme.


Este foi, portanto, um filme que se pretendeu naturalista, mas pesou a mão na artificialidade: a verossimilhança só se torna um problema quando pretendida e não alcançada. Ainda, na tentativa de enfatizar a festividade pagã enquanto traço identitário, sequer logrou despertar uma ponta do desejo carnavalesco neste indivíduo que vos escreve. Adaptando o clichê - que está longe de ser verdade absoluta - para uma reflexão bem-humorada: “menos nem sempre é mais, mas demais pode ser muito menos”.

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