Host (2020)

Por Rafael Duarte



Com algumas (poucas) exceções, o gênero, elevado por A Bruxa de Blair, tornou-se, involuntariamente uma auto sátira. Críticas ao mainstream à parte, a verdade é que o apelo do gênero já não é o mesmo: enquanto filmes como Holocausto Canibal tornaram-se populares pela histeria coletiva e até prisões causadas pela promoção do filme como um documentário real, em uma época em que golpes de marketing eram raridade, o gênero perdeu o falso realismo –sua arma principal.


A premissa do “longa” Host (seus módicos 57 minutos cumprem a duração máxima de uma videochamada em grupo) é bastante simples: seis amigos se reúnem numa chamada Zoom, convidando uma médium para conduzir uma sessão espírita. Como todos os filmes de terror, a menção de assombrações é piada entre os amigos, até evoluir para as acusações de brincadeiras sem graça e fingimentos. Depois vem o medo. Rob Savage entende que o tempo e o ritmo são o coração de filmes de terror, e constrói a tensão de maneira limpa, proposital. Com experiência em curta metragens de horror, a reverência ao gênero é evidente durante o filme inteiro.


Essa reverência surge na reformatação do found footage. O formato “chamada de vídeo” não foi uma inovação de Savage, sendo inaugurado pelo longa Amizade Desfeita e polido pelo thriller Buscando…, mas seja por oportunismo, seja pela “arte”, Host triunfa como seus antecessores A Bruxa de Blair e Holocausto Canibal ao se utilizar de seu contexto na construção do suspense.


Lançado em 31 de Julho de 2020 na plataforma Shudder, uma espécie de Netflix para fãs do gênero de terror, o filme soube aproveitar as circunstâncias de forma admirável. Um filme sobre a quarentena, escrito e gravado durante a quarentena, lançado no auge da quarentena, Host é produto de seu tempo de forma tão óbvia que chega a ser quase irônico (duas personagens evitam se abraçar, tocando cotovelos enquanto cadeiras voam sozinhas no quarto ao lado). E ele sabe que não existiria sem seu contexto.




Apesar das limitações do formato, Savage cria uma ambientação eficaz e pessoal, reproduzindo a mesma chamada de vídeo que você provavelmente já realizou com seus amigos. A posicionalidade de Host é seu maior triunfo, obrigando o espectador a pensar, de novo e de novo, que o que acontece na tela pode acontecer com ele. Com produção simples, o filme mostra apenas o suficiente para assustar, sem sustentar seu terror em efeitos especiais saturados, o que garante aos seus raros jumpscares o efeito desejado.


A vulnerabilidade do isolamento, realidade de (quase) todos, torna-se a vulnerabilidade das personagens. Os nomes das personagens são os nomes das atrizes. Sua separação, a médium garante, pode parecer estranha numa sessão espírita, mas tudo deve correr bem. Não é o caso, claro. E nesse universo, um amigo abandonar uma chamada de vídeo pode significar qualquer coisa. Em Host, a desconexão por conta de uma falha na internet tem o potencial de assustar tanto quanto a morte de um amigo. O suspense do não-saber é um dos fundamentos dos filmes de terror. E nesse universo, que é nosso, o suspense permanece quando o Zoom anuncia o fim da chamada.

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