Imagem e Palavra (2018) | A Obra Aberta de Godard


Por André Santa Rosa.

21 de abril de 2019.




Jean-Luc Godard, aos 87 anos, situa seu filme-colagem Imagem e Palavra (2018) (e de certa forma situa a si mesmo) em mundo feroz das imagens. Como imaginado por Baudelaire, o homem moderno é bombardeado diariamente por imagens fotográficas e cinematográficas, sendo impossível pensar na modernidade sem pensar na mudança da nossa percepção do mundo a partir do nossa relação com as imagens. Em tempos de internet, espaço no qual o arquivo é quase infinito, Imagem e Palavra constrói uma colcha de retalhos, anacrônica e caótica, para falar sobre a guerra e a violenta natureza humana.


Seguindo a linha de experimentação e desconstrução da linguagem, assim como em seus últimos filmes Adeus Linguagem (2012) e Filme Socialismo (2010)o novo longa de JLG encontra em todo tipo de Imagem, de mídia e época, uma potência – reportagens, glitches, filmes clássicos, imagens de dispositivos móveis e até pinturas renascentistas – o que me parece estar em voga é a forma como elas se comunicam entre si, em repetições, conflitos e narrativas.


“Pensar com as mãos”, narra Godard bem no início de seu filme. Por pensar com as mãos, imagino que esteja falando do próprio processo cinematográfico, de edição e montagem, basicamente no que consiste o filme já que todas as imagens existiam previamente. Por falar na montagem do filme, ela segue uma linha provocativa e por vezes irônica, atributos que por décadas se cristalizam como umas das assinaturas do cineasta. O mosaico criado em Imagem e Palavra tem montagem inconstante, seu ritmo vai do frenético ao contemplativo.


Em dado momento do filme somos bombardeados por imagens de trens. O trem como tudo que ele pode representar: símbolo de um peso, uma força da engenharia humana ou uma ideia de modernidade para a Europa. Mas também a imagem do primeiro cinema A Chegada do Trem a Estação (1896), ao lado de uma filmagem contemporânea (parece ter sido tirada de um vídeo no Youtube) de uma garotinha empolgada com a chegada do trem, me fazendo pensar o fascínio humano pela grandiosidade dos inventos humanos, e para além disso pelas imagens, como algo atemporal.


Existe também a construção de uma iconografia de guerra que liga a condição contemporânea do mundo a qualquer outro momento da humanidade. Por meio dos textos que dizem que não podemos mais ter líderes sanguinários e assassinos, ou “os inocentes pagam pelos culpados”, sobrepostos por imagens de explosões, guerras na Europa, aviões bélicos, fuzilamentos do ISIS e bombas no oriente médio. No longa impera um tom pessimista: Godard acessa a humanidade e a natureza humana por meio da violência cíclica, um caos inerente ao convívio das civilizações capitalistas.


Lógico, é preciso reconhecer que é uma obra de difícil acesso, densa e muitas vezes hermética. Porém, Imagem e Palavra, ao mesmo tempo, parece muito polissêmica e sempre em aberto. Como um todo as imagens pesam, tanto como símbolos em nosso imaginário, como a sanguinolência dos contextos bélicos e geopolíticos que se demonstram acirrados por meio delas. Ainda assim, a sobrevivência do fascínio humano pela imagem é o fascínio pelo mundo: são provas da necessidade de estar aqui e lembrar a necessidade de sobrevivência.

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