Inabitável (2020)

Atualizado: Out 15

Por André Santa Rosa


Utilizar a fantasia como engendramento das nossas tragédias nacionais e pessoais, enquanto experiências, como uma possibilidade de se narrar. É o que faz – de forma bastante sutil e alicerçado por um realismo angustiante e cru – o curta Inabitável. Conta isso com um vigor de narrativas tão clássicas da ficção, tanto em um aspecto da literatura realista fantástica latino-americana, como no crivo das ficções científicas anglo-saxônicas (inclusive as mais pops, como Arquivo X). Em seu título carrega justamente uma maneira de “não estar”, de não corporificar-se em um lar; essa recusa por habitar, ou melhor, a impossibilidade de se fazer presente.


O filme é mais uma direção com a assinatura dos pernambucanos Matheus Farias e Enock Carvalho, que começaram a parceria em A Margem Escura do Rio, além da colaboração em Quarto para alugar e Caranguejo Rei. De todo modo, se formos pensar nas articulações estilísticas e de gênero fílmico, o curta se localiza como um desdobramento desse processo de investigação. Mas diferente de Caranguejo Rei, por exemplo, o não dito ocupa uma espaço maior nessa história que de várias maneiras é sobre ausências e presenças.


Inabitável conta a história de Marilene (Luciana Souza), uma mãe que procura sua filha, Roberta, uma mulher trans que saiu para uma festa e não retornou para casa até então. Na cena de abertura, entre a poluição sonora de pregações da vida suburbana neopentecostal e a assepsia das paredes brancas do metrô do Recife, vemos a personagem de Marilene articular uma angústia silenciosa: uma concentração sepulcral e aguerrida que mantém durante o filme.


Por mais que nós, a partir de contextos, vivências ou estatísticas, esperemos o desenrolar de alguma violência, ela surge muito mais articulada nos mistérios e pulsão. De uma tensão permanente subentendida pelo imaginário violento da experiência LGBT no Brasil, especialmente da letra T. Também na forma de suspensão em que se conta a história, desvelando sutilmente a vida de uma personagem que nem chegamos a conhecer de fato.


Contudo, essa busca não traz apenas a tensão do mistério. Há uma angústia pela “intromissão” necessária da mãe na constelação afetiva de sua filha, que em algum nível ela mesma desconhecia. Na cena da visita ao IML, ao ser perguntada sobre a tatuagem para identificar um possível corpo, a mãe nega, enquanto a amiga de Roberta denúncia a marca que a garota carrega no corpo. As duas tinham feito juntas, mas Marilene nem sabia. Ao mesmo tempo, em seguida a mãe afirma de maneira acachapante que aquele corpo na maca não era de sua filha. É uma relação de solstícios e equinócios, de aproximações e distanciamentos muito bela, todas elas articuladas de forma sutil pela instância do corpo. A questão passa a ser, também, como mãe e filha naturalmente desvelam as breves desarticulações de universos e desse afeto materno. Contudo, também, se articulam, entre outras coisas, pelo denominador comum do medo e da violência a que estão suscetíveis.


Da ausência só resta uma luz, um dispositivo misterioso que vai ficando cada vez mais quente. O final em aberto é no limiar entre o que é, de fato, mistério sobrenatural e o que simplesmente fala sobre os relacionamentos afetivos das personagens; entre o mistério da fantasia estelar e a constelação afetiva de mãe/filha. Um feixe de esperança por onde entra a luz, que faz da fantasia esse corpo para iluminações e sobrevivências na periferia do Brasil.

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