It Follows (2014)

Por Rafael Duarte


It follows é sutil.


Em muitos aspectos, o longa de David Robert Mitchell é contido, quase elegante. Com uma quasi-metalinguagem, assim também é a criatura imaginada por ele. A sua premissa é simples: devagar, mas constante, o monstro persegue uma única vítima em passos lentos, podendo mudar de forma a qualquer momento. A primeira vez que a criatura aparece para Jay, a paradoxal final girl cercada por amigos, ela apresenta-se como uma mulher de meia-idade nua. Na última, como seu pai, também nu. Durante o decorrer do filme, porém, o monstro assume a face de sua irmã, de uma idosa, de um homem que aparenta sofrer de gigantismo.


Em um primeiro momento, o monstro parece ser o mais fraco da história dos creature features. Sem “poderes” ou armas além de força e aparente indestrutibilidade, é, essencialmente, uma pessoa andando. Andando bastante devagar, inclusive. Depois de assistir o filme pela primeira vez, entretanto, passei a considerar esse o pior. Aparecendo sempre como alguém novo, invisível aos outros e, acima de tudo, tenaz, a criatura aparentemente capaz de matar apenas com seu toque é uma vela acesa durante a noite, uma possibilidade quase nunca concreta, um terror indimensionável visto apenas pelo canto dos olhos.


Esse perigo sempre iminente pode ser compreendido de diversas formas. Amplamente interpretado como uma metáfora sobre DSTs, análises mais cuidadosas apontam questões como o abuso sexual, a depressão, o luto. Acredito que é redundante discutir figuras de linguagem, particularmente quando o subtexto é muito mais rico quando disfarçado. It follows é sobre algo, sim, algo importante, em verdade, mas a beleza da construção de Mitchell é a sutileza.


Carol Clover argumenta em seu Men, Women and Chainsaws, que são cinco os elementos constituintes de slashers: assassino, local, armas, vítimas e impacto visual. Slasher é o filme que introduz um assassino único, previsível ou reconhecido, que mata em um Lugar Terrível¹ sem utilizar armas de fogo. Suas vítimas são conhecidas pelo espectador, levado a focar sua empatia e atenção à típica final girl, e cenas sangrentas e perturbadoras são bem vindas.


Nesse sentido, a morte não é consequência, tampouco surpresa. É esperado que, em um grupo de amigos, reste apenas um: tipicamente, uma mulher, apesar da tendência a nomes andrógenos, como Laurie Hill (Halloween, 1978), Sidney Prescott (Pânico, 1996), e Jess Bradford (Noite do Terror, 1974). Para Clover² , essa tendência reflete uma preocupação do gênero em criar personagens simpáticos ao público, que é convidado a colocar-se no lugar dos protagonistas.


It follows possui, de formas diversas, todos esses elementos. Em antíteses deliberadas, Jay, com nome particularmente andrógeno, foge de um assassino perceptível, mas quase nunca presente. Sem armas e dedicado à brutalização, mas com número pequeno de vítimas, It follows parece rir da classificação de slasher. O sexo é retratado, de maneira quase irônica, conforma a máxima do gênero: são sempre os casais “ocupados” que são mortos primeiros. Em It follows, a perseguição funciona como uma DST, e apenas os infectados enxergam a criatura. O último na fila é o perseguido, e sua morte significa a volta para quem a passou.


Suas interpretações literais atribuem uma irreverência ao filme que, ainda assim, brilha pelo terror psicológico. O espectador é convidado a colocar-se no lugar de Jay de uma forma radical, pois, por vezes, a criatura aparece em cena muito antes de ser percebida. Os slashers, com a tradicional Câmera “Ponto-de-vista”, por vezes colocam o espectador como agente das mortes, observador voyeurístico da violência. It follows, mais uma vez, subverte essa perspectiva.


Sem marcos temporais definitivos, It follows possui elementos estéticos dos últimos 50 anos, com atenção a detalhes tão cuidadosa quanto confusa. Com uma direção característica, Mitchell constrói um universo de expansividade desconfortável, criando uma sensação de familiaridade por meio da nostalgia, mas, também, rompendo expectativas a todo o momento.



Jay é uma das principais disrupções. Forte, inteligente e independente, a personagem torna-se agente desde o princípio, e Mitchell nos poupa dos típicos 45 minutos de confusão e idiotices. Jay entende o que está acontecendo, relata, e, surpreendentemente, é levada (parcialmente) a sério. It Follows preocupa-se menos com o assassino e mais com a vítima, com seus relacionamentos, com suas ações. É um dos raríssimos filmes de terror onde os personagens são capazes de tomar decisões sólidas antes de termos tempo de pensar no que faríamos em seu lugar.


O filme propõe-se a lidar com uma criatura simples, com um roteiro simples, com um contexto simples, e triunfa ao conseguir, com técnica e execução, elevar todos os seu elementos a um nível coerente e inconfundível. Mais do que um slasher, ou terror psicológico, ou suspense, It Follows é um bom filme, de visual, trilha sonora (elaborada por Disasterpeace com base no material de John Carpenter, John Cage e Penderecki) e roteiros coesos, únicos e autoconscientes. É um filme pouco ambicioso.

É sutil.


NOTAS

¹ CLOVER, Carol. Her Body, Himself: Gender in the Slasher Film .Representations, No. 20, Special Issue: Misogyny, Misandry, and Misanthropy, 1987.

² CLOVER, Carol. Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film. Princeton University Press, 1992.






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