Jogos Dirigidos (2019) | Os pequenos gestos de letramento em Jogos Dirigidos

Por Daniel de Andrade Lima.

Publicado em 07/11/2019.


*Jogos Dirigidos foi assistido no Janela Internacional de Cinema, 2019, estreia do filme em formato de cinema no Brasil. A sessão contou com participação do diretor Jonathas de Andrade e com execução de trilha sonora ao vivo e in loco.



Jogos Dirigidos (2019), de Jonathas de Andrade, já se inicia anunciando o primeiro mote: em letras que tomam a tela, lemos que o filme parte de “dinâmicas de integração de elenco e aquecimento emocional com a comunidade de não-atores de Várzea Queimada”. Este gesto discursivo, que frisa um elenco não-ator, o anuncia a partir da presença de jogos teatrais e o localiza na comunidade, parece central na validação do gesto criativo do diretor. Não é a primeira vez em sua obra que o artista se volta para um outro, o coloca a performar e, através disso, expõe algumas redes de precariedade e vulnerabilidade social.


Na montagem do filme, uma série de jogos se intercalam e se confundem dinamicamente. Em um ambiente facilmente reconhecível como parte do sertão nordestino – o povoado de Várzea Queimada se situa no interior do Piauí –, vemos um grupo de pessoas comporem rodas, correrem em círculos e desordenadamente, andarem em fila para fora de uma igreja, disputarem cadeiras em um campo aberto e correrem se procurando por um pequeno cemitério. São atividades que, comuns aos jogos infantis, se tornam estranhas por uma série de razões. Primeiramente, são executadas aqui por um grupo heterogêneo de pessoas, com idades e disposições físicas variadas. O próprio registro em imagem parece nos levar a certo estranhamento de ações que em outras circunstâncias poderiam ser mundanas. Por fim, no filme os jogos são adaptados, tanto aos espaços que ocupam em Várzea Queimada (um campo aberto, a igreja, o cemitério), quanto a uma série de regras que não se tornam plenamente evidentes para quem vê, mas sim para quem joga. Assim, o jogo de reconhecimento e estranhamento me parece central na experiência do filme: relaciono Várzea Queimada a outras cidades que conheci, afastadas dos grandes centros urbanos, de maioria negra e marcadas pelo trabalho rural, e, simultaneamente, veto minha rede de relações ao reconhecer as particularidades desse espaço. Lembro dos jogos que já joguei ao passo que estranho os que vejo na tela.


Não demora para que os cortes rápidos desses jogos sejam intercalados (e por vezes submetidos) a uma série de relatos que nos aproxima de cada sujeito do elenco. Um a um, a partir de montagens que frisam a singularidade de cada jogador, vemos cada habitante de Várzea Queimada, no filme, encenar a si mesmo, relatando narrativas que parecem pessoais. Eles não vocalizam palavras, mas se movem rapidamente e com certa precisão, entre movimentos que ora parecem ser da ordem da mímica, ora parecem ser uma língua própria de sinais – aprendo, sem muita demora, que Várzea Queimada tem uma grande quantidade de surdos e acabou por desenvolver uma linguagem própria, por conta das dificuldades de acesso ao ensino tradicional de Libras. As mãos acenam vigorosamente, riscam a própria testa e realizam golpes rápidos ou lentos pela tela. As expressões faciais acompanham esses gestos: os rostos se contorcem, riem, exalam e vocalizam pequenos gemidos que se associam aos movimentos. Enquanto vemos uma pessoa relatar a si mesma, o filme também nos mostra – por pequenos cortes – o grupo de jogadores que assiste atento a essas pequenas encenações teatrais, tecem pequenos comentários gestuais, gargalham e, por vezes, choram. Cada rosto é valorizado: o de quem encena a narrativa sobre si e os daqueles que encenam a posição de espectador.


Ao fim de cada um desses relatos, dessa sucessão de movimentos que me esforço para atribuir sentido, o filme apresenta um pequeno dicionário, uma breve tradução. A partir de um recurso que transforma o gesto em instante pausado, sobre determinados "gestos-convertidos-em-poses" surgem legendas gigantes que nos trazem ações (beber, mergulhar, passar fome), substantivos (boi, fruta, moto) e uma maneira própria de organizar palavras que não se resume simplesmente às categorias gramaticais dadas. Essas pausas legendadas aparecem enfaticamente acompanhadas de uma sonoplastia, que frisa esse momento próprio da tradução. A partir de uma sucessão desses instantes-poses, que fixam o movimento, as caretas e o tempo, temos acesso a algumas sintaxes, ao ato próprio da língua de encadear vocábulos e compor narrativas – no caso, sobre si mesmo.



Com a repetição, passamos a reconhecer alguns sinais que se repetem (em uma mesma história, em diferentes histórias) e, simultaneamente, a perceber as singularidades de cada execução. Se não falamos as palavras das mesmas maneiras, quando a palavra se faz no gesto isto se torna ainda mais evidente: as diferenças e semelhanças se mostram na tela, na capacidade própria do cinema de nos fazer estranhar e nos interessar pelos pequenos gestos. Se os gestos têm semelhanças, não são duas vezes iguais.


A cada encenação narrativa, somos convidados a passar pelo mesmo processo: encarar uma sucessão de gestos e expressões que possuem grande variedade de qualidades de movimento, que se alentam, aceleram e mudam constantemente de atitude. Vemos o que gera no público-elenco, as reações, a atenção, as redes próprias de afetos das quais não fazemos parte. Ao fim de cada narrativa, voltamos a ter acesso às imagens estáticas que nos apresentam uma série de palavras escritas que compõe o relato: mais do que um gesto de tradução, o filme realiza um gesto de letramento. Somos convidados a tanto nos interessar pelo caráter performático do movimento – a partir de uma expressividade que não é facilmente significável –, quanto a nos esforçar para colocá-los em relação, codificá-los, organizá-los semanticamente.


Mas o colocar em relação, a rede de sentidos que se atrela à performance de gestos, não é (e nem teria como ser) simplesmente um exercício formal de linguagem: os vocábulos que aparecem são próprios a determinados modos de vida, atividades cotidianas, dramas pessoais. Aparecem maridos abusivos, filhos largados, homens violentos e que se afogam em bebida; mulheres que fogem, que mandam embora, que não aguentam mais. Histórias de bebedeiras, de andar troncho na moto, de paqueras, de quase morte. As narrações sobre si mesmos têm a ver com rotinas de trabalho, do corte de cana, do labor rural, do ordenhar da vaca. O gesto se faz para a ação e a ação aqui nos apresenta uma pluralidade de modos de viver, singulares entre si, mas simultaneamente comuns dentro do contexto de Várzea Queimada.


Em um final apoteótico, marcado pela presença da trilha potente, o filme constrói um pequeno dicionário, que relaciona enfaticamente as cartilhas-imagens-instantes-gestos-legendas entre si. Vemos as recorrências entre as narrativas femininas e masculinas, os gritos de “sai”, as encenações de beijo, as histórias afetivas. A cada relação comum, se frisa a singularidade de cada jogador de Várzea Queimada e, antes que possamos cristalizar as histórias próprias das mulheres e dos homens, o filme nos desloca: nos faz dividir o elenco por idade, por ocupação, por família. Nos mostra as similaridades e as diferenças, os sobrenomes em comum, as semelhanças, mas também os desvios, as tensões, as rupturas. Parecem ser as diferentes maneiras de relacionar e singularizar, socialmente, linguisticamente, performaticamente que se apresentam durante o filme. Mais do que um simples gesto de tradução (e de letramento), Jogos Dirigidos me lembra que a palavra se faz da ação e, à contragosto do bíblico João, é da carne que se faz o verbo: da carne de cada história de vida, de cada experiência, de cada maneira singular de viver as próprias precariedades e potências e, talvez principalmente, de se reconhecer com outros.

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