John Wick 3: Parabellum | “If I ever end up like Ian McShane slit my throat with a kitchen tool”*

Atualizado: Ago 30

Por Alan Campos**

30 de maio de 2019.



John Wick 3: Parabellum (Chad Stahelski, 2019), ao contrário dos filmes anteriores da franquia, não precisa nem de um gatilho para desencadear suas cenas de violência estilizada. No primeiro filme (2014) houve a reação ao cão assassinado como desculpa para a morte de dezenas de pessoas; no segundo (2017), a descoberta de que tais ações do protagonista John Wick (Keanu Reeves) não poderiam passar despercebidas pela grande rede de assassinos que compõem esse universo, e sua cabeça foi posta a prêmio por 15 milhões de dólares. No fim do filme, John foge para procurar alguma alternativa que o coloque em vantagem contra o resto da organização, que parece ter se articulado para que em cada esquina um assassino anônimo esteja a postos. Esse final, de certa maneira, consiste no início do terceiro filme: Parabellum começa minutos após o último plano do segundo. O palco já fora montado e todos já estão em ação/reação. Sem novas explicações, somente os corpos em estado catártico.


O nível de progressão dessa franquia não esconde suas motivações em querer ser maior, tanto em sua geopolítica, como em suas coreografias. O primeiro era sobre uma vingança pessoal contra um número relativamente restrito de pessoas; o segundo, sobre John tentar redimir seus atos; o terceiro parte da improbabilidade de acordo entre as partes envolvidas, o que resulta no mundo como face antagônica a John Wick: a sensação claustrofóbica de que o universo da franquia não cabe no mesmo terreno que seu protagonista. A série progride em direção a montanhas mais altas, a perspectiva de que sempre é possível alcançar mais sem cair na mesmice. E isso funciona brilhantemente em Parabellum até o fechamento, quando não consegui evitar sentir um certo “gosto ruim” por ver o roteiro retornar ao final do filme anterior e, assim, diluir a maravilhosa geografia verticalizada dessa montanha em forma de franquia.


Tendo em vista que um quarto filme já está planejado para 2021, não me parece tão absurdo que Parabellum tenha, propositalmente, regredido alguns passos para deixar espaço para o futuro. Há uma justificativa plausível para os três filmes da franquia se passarem no período de poucos dias, já que a violência desencadeia reações ainda mais violentas, cada vez mais rápidas (instintivas). Nesse ritmo, tudo seguia um movimento crescente até o balde de água fria que é o momento final.


Personagens centrais como Winston (Ian McShane) se tornam pouco condizentes com seus desenvolvimentos, por conta dessa conveniência do roteiro em progredir pensando na exigência de ter um quarto filme, e não na necessidade de continuar escalando a montanha. A “barra é forçada” para esse playground de violência persistir em mais filmes, pois não há engano sobre a franquia se tratar de uma busca pelo primor técnico.


Chad Stahelski – diretor dos três filmes e antigo coreógrafo de dublês – veste seus personagens com as morais e afetos do cinema de John Woo e Jean-Pierre Melville, pois o que lhe interessa é um retorno ao rigor do corpo cinematográfico em movimento, algo próprio desses diretores. Diante de uma indústria que assassina milhares de figurantes digitalizados em poucos segundos para chamar atenção da plateia, Parabellum retorna aos últimos suspiros do corpo antes de morrer: objeto em proximidade, à flor da pele, não fixado no espaço e em puro ânimo.


Existe um reforço no gestual da franquia, que é aprimorado ainda mais neste filme, com corpos quase barrocos, sendo carregados de tensão e volatilidade. O paradigma cinematográfico deste caso consiste em ser tão perfeitamente coreografado, a ponto de ser quase uma dança de esculturas ardentes com gestos explosivos, que chega a parecer totalmente livre de uma mão por trás da encenação, como se os realizadores sumissem em prol do registro. Em seus melhores momentos, John Wick 3: Parabellum promove o desejo estilizado pela violência, e acaba por apresentar corpos tão disciplinados que os gestos nascem em meio à comoção das lutas (e não enquanto materialidade do rigor da coreografia). As montanhas foram escaladas, certamente. Agora nos resta saber se a subida voltará a ser tão prazerosa.

**Alan Campos pesquisa imagem e imaginário em comunicação pela UFPE. Fã de krautrock e The Fall.


* https://www.youtube.com/watch?v=W11IodefYBQ

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