Jojo Rabbit (2019)

Por André Santa Rosa

A arte e, é claro, o cinema por muitas vezes utiliza do riso como mecanismo de desarme. Principalmente como ferramenta iconoclasta: para muito realizadores, ridicularizar os poderosos é, em algum nível, uma forma de derrotá-los. Isso não é de agora, basta voltar aos anos 1940, quando Chaplin escreveu, protagonizou e dirigiu O grande ditador. O longa que satiriza as figuras de Hitler e Mussolini, em plena Segunda Guerra, recebeu várias indicações ao Oscar e entrou para os cânones do cinema. Em gesto semelhante, Taika Waititi dirige, escreve e atua seu aclamado Jojo Rabbit, um filme que acompanha o amadurecimento de um garoto da juventude hitlerista. O longa, que também disputa várias estatuetas, entre elas a de melhor filme, chega hoje às salas de cinema do Recife.


Vale ressaltar que Watitti divide o protagonismo com o talento mirim de Roman Griffin Davis, que interpreta Johannes. O jovem idealista tem o sonho de ser um soldado nazista e lutar na guerra. Wattiti é seu amigo imaginário, um Hitler pastelão ao estilo Monty Python. O diretor neozelandês, conhecido por comédias como O que fazemos nas sombras e Thor: Ragnarok, encontra no humor satírico uma crítica sólida à Segunda Guerra Mundial e aos regimes totalitários. O que conturba a vida idílica ariana do garoto é a presença de Elsa (Thomasin McKenzie), uma garota judia que sua mãe Rosie (Scarlett Johansson) escondeu no porão. A situação gera momentos cômicos e emocionais, que observamos através da imaginação de uma criança criada em um estado de exceção de poderoso aparelho coercitivo. Para quem gosta de humor obscuro, o filme consegue colocar as peças nos lugares certos para render situações de potencial cômico. Que pelas reações na sala de cinema deve dividir bem o público.


Talvez a maior dificuldade de Waititi seja gerar alguma emoção que não seja o desconforto ou o humor. Mesmo quando tenta construir arcos dramáticos e explora o emocional dos personagens, o desconforto parece imperar. Existe uma tentativa honesta de dar o peso da guerra ao mundo idílico de Jojo, mas não convence - ao menos, não tanto quanto o humor. De qualquer forma, o riso desarma os perigos de se voltar a um dos períodos mais grotescos da história da humanidade. O filósofo e linguista Mikhail Bakhtin acreditava que o riso é “uma vitória sobre o medo”. Talvez seja essa a intenção mais nobre de Waititi.

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