Lords Of Chaos (2018) | Life Metal

Atualizado: Ago 30


por Alan Campos*.

8 de maio de 2019.



Lords of Chaos (Jonas Akerlund, 2018) se inscreve no contemporâneo como integrante de uma leva de filmes parcialmente interessados na verdade de seus protagonistas – músicos reais – onde, claro, não poderia ser composto por outros que não seus atores de cara lavada, pele limpa, e fotogenia publicitária – que em algum lugar do passado realizaram proezas que necessitam serem relembradas. Motley Crue, Freddie Mercury, Elton John, Erasmo Carlos, são alguns que já foram reconstruídos cinematograficamente em tons excessivamente esbranquiçados – com a presença de muitos outros em um futuro iminente.


Mas ao invés de focar em um personagem famoso e carismático, Lords of Chaos, opta por tecer as relações da juventude Black Metal norueguesa do início dos anos 90. Acontece que essa cena se tornou notória devido a uma série de crimes - incêndios de igrejas cristãs e homicídios -, além da prática do satanismo e do autoflagelamento. Talvez seja por isso que o Black Metal de bandas como Mayhem ou Burzum importa; que relembramos personagens relativamente desconhecidos, como Dead (Jack Kilmer), Varg (Emory Cohen), Euronymous (Rory Culkin).


Mas se esses discursos carregam um aspecto naturalmente próprio do dissenso, o filme opta por decantar ao máximo quaisquer problemáticas em torno das práticas de vida de seus personagens: tudo cai em prol do divertimento da linguagem cinematográfica. Em sua recusa em contar essa história sem o excesso – de sangue, de ironia, de símbolos “polêmicos” e satanistas –, resta o risório, fazendo-nos enxergar os personagens de Lords of Chaos como adolescentes unilaterais, carregados de clichês raivosos e desprovidos de qualquer desejo de serem levados a sério em suas questões políticas.


A política do filme consiste em desenvolver pequenas perversidades infantis, frequentemente movidas pela violência, e torná-las choque pelo choque. Breves “urghs”, rápidas repulsas, que são degustadas sucessivamente como parte de uma narrativa que sempre parece atrelada em zombar de seus personagens. Exceto quando se trata de um caso seleto de cenas, que são as recriações dos acontecimentos mais famosos do livro no qual se baseia: um assassinato se destaca dentro do corpo fílmico por ser reencenado de maneira dissonante do restante da narrativa, ao ser imaginado em tom seco e em planos mais longos, por exemplo. Um fato marcante no cânone dessa história real, um fato suspendido da progressão narrativa movida por choques baratos e que impede um tom coerente para o filme; o que não seria um problema se existisse uma condução preocupada em lidar com as superfícies apresentadas para além da reconstrução “wikipédica” ou do choque simplório.


Lords of Chaos perde no interesse em complexificar seus seres humanos o que de sobra tem em torná-los caricatos. Não se trata de condená-los (o que nos levaria a questionar o porquê do filme ter sido feito), nem de romantiza-los (afinal, se trata de uma biografia anêmica), mas de colocá-los em uma perspectiva palatável para um grande público. Portanto é de se estranhar que um filme sobre o nascimento de uma cena de Black Metal não contenha quase nenhuma trilha sonora do gênero que presta homenagem? Acho que não. Como tornar música agressiva e satanista palatável? Acho que seus diretores se perguntam isso até agora...


Em meio aos acontecimentos mais famosos (leia-se sensacionalistas) da cena no início dos anos 90, temos a personagem Ann-Marit, interpretada pela cantora/modelo Sky Ferreira. Ela atua como namorada de um dos personagens principais, mas não existe na história real. Sky é de uma beleza gelada, muito nórdica, magra e esbelta, de expressões modestas, e a atriz faz um contraponto perfeito ao anjo demoníaco de Rory Culkin, ator de rosto pálido e olhos estupidamente azuis que moldam um personagem aparentemente desprovido de sentimentos. O que chama atenção nessa dinâmica do casal de pathos mortificante é que, através deles, Lords of Chaos acessa a uma dimensão de fascínio pelos corpos e consegue, por breves momentos, suspender suas ironias estéticas em prol do casal, que parece condenado desde cedo por suas práticas autodestrutivas.



*Alan Campos pesquisa imagem e imaginário em comunicação pela UFPE. Fã de krautrock e The Fall.

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