Midsommar (2019)

Por Alan Campos.

20 de setembro de 2019.


Primeiro não há música, Dani (Florence Pugh) segura o choro ao fazer uma ligação para Christian (Jack Reynor), seu namorado. Em seguida, opera-se a violência do barulho ao descobrirmos um evento trágico que irá jogar Dani na depressão do pós-traumática. A protagonista se retém, não faz barulho, segura suas emoções, se torna retraída. Mas isso não dura, ela chora, entra em pânico; ela cai. Dani desconhece outra dinâmica de experiência e ao longo das duas horas e poucas de Midsommar (2019, Ari Aster), a protagonista compartilha apenas com o espectador seu trauma. Nós somos induzidos ao seu processo de superação, ora através de experiências lisérgicas, ora por meio do (pseudo) apoio de seus amigos. Uma celebração pagã em uma região remota da Suécia funciona como uma oportunidade para a personagem espairecer, ao passo que os interesses de Christian e seus amigos variam entre a curiosidade, a chance de sexo fácil e o interesse acadêmico (dois personagens são antropólogos).


Midsommar alavanca sua potência ao inserir seus espectadores em uma realidade que vai ser tornando menos repulsiva e mais chamativa. O filme inverte o suspense da expectativa do monstro para a desnaturalização alucinógena da ideia do amedrontador. Ao se desprender do horror e se direcionar para o fascínio solar, o filme abarca o estranho – sua indiscernibilidade do cômico com o grotesco – como redenção, ele configura sua iconografia cenográfica para a catarse narrativa e para a comoção do espectador. A alegria é entendida a partir do choro, a tensão é vista delineada pelo cômico; a vida é indissociável do morrer. Em seu ritmo lento, Midsommar abarca a música como símbolo pendular de sua incapacidade de permanecer estável e no plano fixo da utilização direta tão comum ao gênero do horror. Portanto, não há músicas de suspense sem que elas se tornem comoventes, como também não há ritmos serenos destoados da ansiedade. Indo além do que foi feito em Hereditário (filme anterior de Ari Aster), Midsommar é dotado de resquícios estéticos e estilísticos tanto de Bergman como de Kubrick, ao passo que sua originalidade nada se deve ao seu material de influência. O mérito da direção de Aster está em agenciar símbolos do gênero do horror – os rituais, os assassinatos, a loucura – e conferi-los sob novos sentidos que variam entre o pertencer/não-pertencer, com subtextos precisos sobre relacionamentos modernos.


Aquilo que no filme é potência, aquilo que engaja os corpos para além dos códigos narrativos do suspense e do drama, é a possibilidade da cura pela catarse pagã: Dani é uma criança desacolhida, largada aos espaços sem um norte, desesperada pela atenção do namorado como única possibilidade de lar. Uma pessoa sem útero. Através do sacrifício, da morte, do fogo, da fertilidade, da dança e do suicídio, um vislumbre é revelado a nossa protagonista: um novo útero, um novo pertencer, uma nova vida, uma sociedade acolhedora e desprendida dos antigos males é anunciada como promessa. Entretanto, para o choro se transformar em sorriso, e para a tristeza se reverter em alegria, é necessário a repetição histérica, a euforia, o desespero, a morte e o desprendimento violento daquilo que segura Dani ao seu antigo mundo. A cura não vem sem sofrimento. É nesse jogo de perder com ganhar, de afundar na depressão com o gargalhar alegre, que Midsommar se revela como uma reflexão pertinente para nossos tempos. Entre o rompimento com o útero e a procura por um novo ventre simbólico, reside o pêndulo do desconcertante com o regulador. Ari Aster nos apresenta os símbolos que erguem dois mundos diferentes, e acaba por promover a passagem de um para outro através do agenciamento do arcabouço imagético do gênero horror. Poucas coisas parecem tão sintomáticas do contemporâneo como Midsommar: esse desejo de se enraizar, de fazer presente uma outra vida, esse retorno ao sangue catártico – tão presente em filmes contemporâneos como Bacurau e O Apóstolo – como cura aos males urbanos e não pagãos: essa promessa da dança para expurgar as aflições.


* A música do final do filme


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