Narciso em Férias (2020)

Atualizado: Set 15

Por André Santa Rosa


O ato de narrar implica a busca por outras experiências, outras vidas, por muitas vezes, uma chance de reconhecer o sofrimento alheio – que de antemão parece sempre tão abstrato. Narciso em Férias, documentário de Renato Terra e Ricardo Calil, conta, a partir do relato em primeira pessoa de Caetano Veloso, a sua experiência como preso pela Ditadura Militar em 1969. A prisão arbitrária do músico, junto com o colega Gilberto Gil, se deu pelas brechas abertas pelo AI-5. Utilizando justamente o relatar a si - não só como potência biográfica, mas explorando seu total potencial político - Narciso em Férias expõe as facetas da violência de um regime a partir de um nova dimensão privada, ética e humana.


“As súplicas morreram n’um eco em vão/ sofrendo nas paredes frias de um apartamento”, ecoava a canção no apartamento de Caetano na noite anterior a prisão. Porque antes mesmo de ser um relato sobre os dias mais violentos de sua vida, é a história de tudo que ele foi antes disso, incluindo as canções que amava e que tocou para aqueles que esperavam por ele do lado de fora da cela. Inclusive, é muito interessante observar no relato de Caetano a presença da música como uma espécie de instância primeira das situações, dos sorrisos da irmã mais nova em Irene no passado, ou da esperança em ver a luz do dia e da liberdade em Hey Jude. É também tudo sobre a música, até porque, em teoria, foi uma versão “subversiva do hino nacional” que o pôs na prisão. A música é justamente o princípio e o fim dessa narrativa, que se encerra com a canção Terra.


Inclusive, a cena sobre a revista com as fotos da terra traz uma das imagens mais belas do filme: Dedé, naquela época esposa do músico, leva uma revista com uma das primeiras imagens do planeta visto do espaço. "Quando eu me encontrava preso/ Na cela de uma cadeia/ Foi que vi pela primeira vez/ As tais fotografias/ Em que apareces inteira/ Porém lá não estavas nua/ E sim coberta de nuvens", escreveu anos depois. É de uma ironia e leveza incrível, esse homem preso - que poucos dias antes não conseguia chorar ou gozar como mesmo diz - se deparar com uma imagem que exibe algo muito maior que seu sofrimento, ao mesmo tempo, de como o universo é vasto e alheio à sua condição. O filme consegue apresentar isso de forma muito bonita.

Um momento em que vemos outro dimensão da narrativa e do narrador é na leitura do texto do interrogatório. A capacidade de Caetano de rir dos absurdos considerados “materiais” pra ditadura é um sopro da vitória do riso. Inclusive, nos traz gestos muito interessante do narrador como esse personagem que desliza entre tempos, de algo mortal para motivo de risada, mas também da mutabilidade da sua visão de mundo e percepções do que aconteceu e quem ele era. Digo isso, também, porque no documentário que foi gravado em 2018, Caetano rechaça completamente as experiências socialistas, algo que se atualiza na entrevista recente com Pedro Bial, em que o músico menciona Domenico Losurdo como um pensador que tem servido de base para repensar seu posicionamento. É muito perspicaz a forma como Narciso em Férias traduz essas multiplicidades de tempo.


Já no seu modo de fazer, o filme deixa a entender que trabalho de câmera muitas vezes busca no erro - seja um microfone aparecendo ou um foco atrasado - um momento para mostrar um aspecto intimista e de simplicidade, mesmo todos nós sabendo que é uma produção de grande escala da Rede Globo. Mas de todo, a escolha pelas paredes em concreto cru e o minimalismo da montagem, decupagem e cenário me parecem bem efetivos para pôr ao centro da história uma forma tão secular e esquecida da narrativa que é o relato oral.


Mas Narciso em Férias representa movimentos mais amplos nos modos contemporâneos de contar histórias. Quando a história canônica entra em disputa, inclusive pelos deslocamentos nas forças institucionais para saudosos da ditadura no poder Executivo, vemos uma forma muito interessante de mesclar a vida pessoal a uma história de tempos sombrios no país. É verdadeiramente um privilégio termos uma narrador como Caetano, no auge de suas limitações, ironias e controvérsias. Um narrador primoroso, que tem uma capacidade de atualização e leitura muito interessante, sempre capaz de relacionar o seu próprio relato ao que viu surgir e “morrer em seu país”, relacionar sua vida à sua obra e a existência à arte brasileira.


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