Nardjes A. (2020)


Por André Santa Rosa


Nardjes A. tem uma áurea superficial, e, ao mesmo tempo, assustadora. Principalmente, em relação às reminiscências do que foram os protestos de 2013 no Brasil. As midiatizações, as proposições extremamente amplas e as primeiras experiências de jovens nas ruas reivindicando. Parece um filme que já vimos, mas mesmo sendo de um realizador brasileiro existe muito pouca reflexão sobre isso. Justamente por isso, a primeira pergunta evocada ao assisti-lo: por que ir tão longe para filmar uma juventude militante que existe em nosso país? Ao fim do filme descobrimos a principal conexão entre o realizador e a Argélia: a descendência franco-argelina de Karim Aïnouz (O Céu de Suely e A Vida Invisível). O filme se propõe a ser uma espécie de investigação sobre o estado político de seu país de descendência. Contudo acaba se tornando uma obra de visão meramente ilustrativa, carregando o nome de uma jovem militante que imprime um olhar extremamente objetivo.


No filme, acompanhamos a ativista Nardjes através das lentes do Iphone de Karim Aïnouz. Assistimos um dia inteiro dela se preparando para a manifestação, a vemos pelas ruas e até seu “after” em uma festa. Em um sentido amplo, o filme documenta o estado dessa juventude, idealista e esperançosa, sobre a Argélia, que já foi domínio da França e hoje segue o governo FLN. O filme se passa nas 24 horas da vida dessa manifestante, em uma manifestação no dia 8 de maio. O Dia Internacional da Mulher é um enquadramento a mais, considerando o contexto majoritariamente islâmico, em que existem várias limitações em relação aos direitos das mulheres.


De micareta, passando pelos cantos de estádio de futebol até o ato de fé desmedido nas mobilizações, descobrimos o jeito argelino de protestar através do olhar de Nardjes, que é fruto de uma sequência de relações históricas que seu país enfrentou. Mas a faceta da sua subjetividade e da sua individualidade fica meio aquém no filme. Me parece que esse gesto de “cinema observacional” é o que impede o filme de ir além de convicções patrióticas e isentas de posicionamentos mais específicos. Algumas tiradas nacionalistas no protesto realmente nos fazem perguntar que tipo de força política está por trás das movimentações populares. “Argélia Livre para todos que amam seu país”, diz um cartaz. A protagonista impõe um olhar apaixonado a um cenário político patriótico e apartidário, com o qual foi especialmente difícil de me relacionar. Sabemos os desejos de Nardjes e outros manifestantes, porém tudo se sustenta em uma atmosfera tão perigosamente esvaziada e superficial, que parece uma dificuldade do próprio Aïnouz por não ser tão estrangeiro na terra em que decidiu filmar. É fugaz, passivo, sem vigor.



Ao filmar com celular, Karim parece tentar se dispersar entre a multidão, entre as milhares de telas nesse protesto. Inclusive, dispersa seu próprio olhar, filmando ideias de liberdade e reivindicação que soam artificiais no filme: das selfies com policiais, passando pelas fotografias ao lado dos cartazes de “protesto pacífico”, aos manifestantes limpando a rua após o protesto - imagino que tentando mostrar o quão “civilizadas” são as manifestações. Pretende ser um olhar insider que, completamente apaixonado no meio daquilo tudo, alavanca a ação política a uma instância ainda mais genérica.


De toda forma, Nardjes A. é um filme feliz. Não há problema algum em acompanhar a protagonista em seu contexto de festa ou celebração da juventude. A diversão tem papel importante para a militância jovem em qualquer lugar do mundo. “Defender a alegria e organizar a raiva”, diz um célebre lema da esquerda. Porém Nardjes A. soa muito off ao parecer que não há uma raiva tão organizada - principalmente se olharmos a partir do ânimo político brasileiro. Essa celebração torna o filme um verdadeiro daily-vlog de uma juventude de luta política, que o filme propõe narrar a partir de um ponto de vista, infelizmente tão esvaziado e incompleto.


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