Noite dos Mortos-Vivos (1968)

Os monstros de Romero, os monstros desde então


Por Daniel de Andrade Lima.



A suposta invenção do zumbi contemporâneo


A história de origem já foi contada várias vezes¹ : depois que George Romero lançou Noite dos Mortos-Vivos, em 1968, os zumbis se tornariam um dos monstros mais comuns na cultura midiática, alegoricamente compreendido como um mito próprio do tempo contemporâneo. Apesar de filmes como White Zombie (1932) e Revolt of the Zombies (1936), de Victor Halperin, já existirem há décadas, os mortos-vivos de Romero pareciam desenhar uma nova mitologia para o que viria a ser entendido como zumbi, que lançaria bases para suas produções subsequentes e para a confecção desses monstros audiovisíveis. Noite dos Mortos-Vivos, assim, feito com um baixíssimo orçamento, viria a ser tomado reiteradamente como um filme que traça comentários sociais a partir de metáforas: ora supostamente referindo-se aos movimentos de segregação racial americanos, ora ao contexto geopolítico de guerras, ameaças biológicas e radioativas. Por conta da combinação entre seu protagonista negro – Ben, interpretado por Duane Jones – e a grande exposição de violência gore, o filme é constantemente reivindicado como uma obra radical ou subversiva², que, por conta de suas escolhas narrativas e estilísticas, serviu como um ponto de mutação para o cinema de horror³ .


Noite dos Mortos-Vivos já foi, então, revisado, recontado e criticado diversas vezes ao longo dos últimos 60 anos e sua contribuição para o cinema de horror, para os filmes de monstro e para as relações entre o terror e a crítica social são inegáveis. Nesses revisionismos, aspectos estéticos são frequentemente redescobertos, mas aspectos produtivos também – o site Omelete, por exemplo, conta como um problema na patente do filme serviu para a difusão descontrolada de cópias na época de seu lançamento, o que ajudou em sua popularização. O filme foi tão revisado que foi lançado em uma duvidosa versão colorizada durante os anos 2000, que apesar de ter se tornado popular em versões dubladas no Brasil, foi recebida criticamente por fãs. Assim, criticar Noite dos Mortos-Vivos, para mim, envolve entrar em contato com todos esses discursos que me informaram sobre o filme, bem como olhar para ele como alguém que, ao longo dos últimos 28 anos, cresceu cercado por mortos-vivos: eles aparecem nos meus diversos jogos de videogame, quadrinhos, séries de TV, filmes e sonhos. Meu primeiro contato com o universo de Romero, inclusive, se deu pela refilmagem do sucessor de Noite dos Mortos-Vivos, Dawn of The Dead, lançado por Romero em 1978 e refeito por Zack Snyder em 2004. Conheci, assim, o diretor e me fascinei (por procuração) por seus monstros, enquanto seus fãs já se lamentavam por como seus zumbis letárgicos estavam sendo substituídos por “zumbis-aranhas”, que correm, pulam, são extremamente belicosos e confundem o universo nostálgico do horror com o gênero de ação.


Às suas formas, acredito que os zumbis, como a maioria dos monstros, são figuras relacionais, que convidam diferentes anseios, tradições e emoções a se borrarem. Os zumbis mudaram, afinal, mas ainda são moduláveis: aparecem em ação, comédia e horror, em seus movimentos ora atléticos ora letárgicos, constantemente misturando gêneros fílmicos e de corpo, confundindo afetos da guerra, do terror, da ameaça biológica, do consumo e do luto. Especificamente por isso parece ser reconfortante voltar para os mortos-vivos de Romero: não para ver de onde o zumbi surge, mas para se relacionar com como ele muda aquilo que ele pode ser. Os zumbis de Noite dos Mortos-Vivos, afinal, são uma confusão bagunçada de violência, automatismo e anseios sociais – e por isso são zumbis.


Os zumbis de Romero não são bem como eu lembrava



Em uma cena inicial do filme, Barbara (Judith O’Dea) e Johnny (Russel Streiner) estão prestando homenagem na lápide de seu pai. Em um diálogo metalinguístico, o homem provoca sua irmã sobre o perigo do cemitério, repetindo, enquanto a assusta, que “eles” iriam vir atrás dela, tal qual o enredo de qualquer filme de horror. Poucos planos depois, veríamos um homem se aproximar, vestido de terno, e atacar Barbara – é só no momento do ataque que ele se revela como uma ameaça. Usando as mãos, ele a agarra pelo tronco, para em seguida entrar numa briga física com Johnny, que agora visava proteger sua irmã. Vemos os dois grunhirem em combate, agarrados um ao outro, tentando se imobilizar mutuamente, até que Johnny é derrubado em uma lápide e – com recursos precários de cinema – é dado como morto pela performance do ator. É assim que a primeira morte do filme acontece: não com mordidas, mas com empurrões; não com movimentos flácidos dos zumbis que nos acostumamos a ver, mas em um combate corporal de agarradas, seguradas e tapas mútuos.


Meu primeiro espanto (perdoem-me a polissemia) ao assistir mais uma vez Noite dos Mortos-Vivos, foi especificamente notar como a memória, tornada viva pelas constantes repetições na mídia, sobre os Zumbis de Romero não era exatamente fidedigna. No filme, os zumbis utilizam objetos, esfaqueiam suas vítimas, abrem portas e utilizam mais as mãos – com suas capacidades técnicas de manipular, segurar, pinçar – do que a boca. Enquanto é preciso reconhecer que os figurantes mortos-vivos de Romero não atuam de maneira suficientemente homogênea para produzir uma leitura coletiva coerente dos monstros, é muito notável que os zumbis são feitos aqui mais por movimentos rígidos e por uma contenção de gestos do que pela flacidez que se acostumou relacionar a eles. Assim, existe uma falta de passividade gravitacional e uma presença de certo rigor muscular que, me parece, é central para certo pânico que os zumbis geram no filme: eles se confundem com os vivos.


Evidentemente, em futuras obras de Romero, e mesmo dentro do próprio Noite dos Mortos-Vivos, os zumbis mudam e aparecem de diferentes maneiras. Mas é curioso que esse filme, tido como a gênese do zumbi pop, apresente seus monstros de maneira aparentemente distinta da que se convencionou associar ao zumbi. Podemos pensar talvez que tais monstros, nesse filme, fazem uma ponte entre os zumbis que os antecederam – mais próximos de uma lógica da automatização do movimento e das ações – e os que viriam: cravejando violentamente por carne, guiando os gestos a partir da boca e da fome. Os mortos-vivos de Romero comem carne humana e – diferentemente dos vampiros, por exemplo – não parecem ter prazer no ato de devorar. Em Noite dos Mortos-Vivos, o ato de comer é quase secundário ao de atacar: daí o espanto de a primeira morte do filme nem sequer apresentar mordidas.


Corpos zumbis


De certa forma, o que observo é que a construção do corpo dos zumbis muda de acordo com cada aparição, e, assim, o corpo zumbi se transformou também com o tempo. Existe, talvez, um gênero de atuação – um gênero de corpo – que os zumbis de Romero ajudam a projetar. Mas os outros personagens do filme, aqueles que, diferentemente dos monstros, tem nome e personalidade, também atuam por gêneros de corpo muito próximos do que veríamos futuramente em filmes de zumbi.


A já citada Barbara, por exemplo, com quem acompanhamos boa parte do filme, varia sua performance entre cambaleadas, caminhadas tortas, corridas desengonçadas, gritos e torções faciais assustadas, desmaios e ataques que, demasiadamente estereotipados, só poderíamos definir como histéricos – com toda a carga misógina que o termo carrega. Os homens, a não ser pelo protagonista Ben, são pouco inteligentes, mesquinhos e atuam masculinidades caipiras que também são um tropo do cinema de horror. Assim, estereótipos de gênero e gêneros midiáticos de atuação se confundem, e os personagens não são mais do que uma sucessão de gestos automatizados. Enquanto personagens como Barbara continuariam a aparecer em filmes futuros de Zumbi, uma certa preocupação com construir personagens femininas menos estereotipadas parece ter emergido no cinema de Romero, que colocaria mais mulheres heroínas em suas obras subsequentes.


A escolha de Ben enquanto um personagem negro, no contexto de Noite dos Mortos-Vivos, parece importante, porque ele é o único dentre os demais que vemos tanto a partir de um medo factível – e assim, torcemos por ele –, como por um certo heroísmo – e assim sabemos que suas escolhas serão certas. É dele que partem os socos, as palavras de liderança, as atitudes urgentes e eficientes para lidar com a crise, bem como a hesitação necessária para lidar com a incerteza da situação. Enquanto os outros personagens gritam e se comportam exageradamente, é a partir de Ben que vemos os outros como um risco: ninguém parece ser confiável, e o comportamento exacerbado de Barbara (que ora fica em pânico, ora desfalece) parece colocá-la em risco, a todo instante, de estar ela própria se tornando uma zumbi.


Enquanto o filme não é claro sobre a possibilidade de contágio (o que se tornaria essencial para filmes de zumbi desde então), boa parte de Noite dos Mortos-Vivos se baseia nas tensões entre os personagens e nos riscos que eles oferecem uns aos outros, mas especialmente para Ben. Qualquer pessoa que morra parece poder retornar como zumbi, mas durante boa parte do tempo são os caipiras (vivos e brancos) que nos deixam tensos. Este aspecto de um grupo de pessoas, em isolamento, esperando uma ameaça que vem de fora – mas que pode emergir de dentro – parece ter alavancado papeis e cenas que seriam reorganizadas por uma série de filmes do gênero no futuro e que, certamente, voltam a mim na ameaça sanitária e social do presente.



Um estranho ritmo de ação


Um aspecto central para a tensão do filme emerge das materialidades cinematográficas em que ele é feito: a fotografia em preto e branco trabalha bem o conflito entre as partes estouradas da imagem e as partes demasiadamente escuras e sombreadas. A trilha também exerce um papel fundamental, misturando sonoplastia com sons instrumentais que criam um clima nostálgico de horror. É a montagem de Romero, porém, que me parece especialmente interessante para construir os afetos que se associam aos zumbis.


Em termos de ritmo, se pensarmos o filme amplamente, podemos perceber que o suspense de Noite dos Mortos-Vivos se constrói longamente na exploração da casa que serve de refúgio para os personagens – na iminência de sustos que o filme tenta provocar, confundindo as ameaças humanas e monstras. A liberação das tensões, porém, vêm menos dos sustos e mais do espetáculo gore que o filme se torna em seu último arco, com explosões, tiros, tripas, esfaqueamentos e demais ações do horror que se tornariam características dos filmes de zumbi. Um efeito inquietante, porém, é que por algum motivo – seja por escolha, recursos disponíveis ou assinatura de Romero – em grande parte das cenas o movimento é montado de maneira pouco usual. O filme é constituído prioritariamente por planos curtos e muitos cortes e, especialmente nas cenas com mais ações, os gestos são decupados de maneira que a montagem nos mostra, em geral, os personagens se preparando para executar uma ação, a executando e a finalizando. Ou seja, um ciclo completo do gesto é apresentado mesmo em cenas que, supomos, acontecem rapidamente dentro da diegese do filme. Grande parte dos recursos de montagem no cinema de ação – e em boa parte do cinema de horror e do cinema atual, em geral – envolve construir gestos a partir da montagem de modo que vários planos, ligados por cortes, constituam uma ação contínua: raramente vemos, hoje, um ator de ação construir um gesto completo sem o auxílio de cortes que ritmam o movimento.


Noite dos Mortos-Vivos apresenta gestos pouco súbitos, com pequenos hiatos entre as tomadas de atitude e suas respostas e efeito. O filme de Romero, ao construir os gestos por uma montagem quase truncada, acaba por sublinhar a artificialidade de cada movimento, criando um ritmo, mesmo nas cenas mais movimentadas, lento para os dias de hoje. Daí, talvez, parte do espanto dos fãs originais de Romero de verem o que Zack Snyder faria com seus zumbis décadas mais tarde, montando e dirigindo um filme – supostamente de horror – a partir das tradições gestuais do filme de ação. A estranha montagem e decupagem dos gestos em Noite dos Mortos-Vivos parece vincular mais ainda os zumbis – eles mesmos, seres automatizados pela tradição de atuação – aos vivos – automatizados pelos recursos do cinema. Essa confusão ajuda a borrar esteticamente as distinções de quem é morto e quem é vivo, participando na tensão.


Decupando o horror


Tal combinação de fatores é um dos aspectos que faz, para mim, o fim do filme ser tão brutal, quando, após ser o último sobrevivente da casa e estar livre dos zumbis, Ben é morto por um grupo de caipiras e policiais brancos que caça o que sobrou dos monstros. O filme mostra o grupo andando e atirando, e zumbis se contorcendo enquanto são eliminados, exibindo as execuções quase burocraticamente e diferenciando bem os homens dos mortos-vivos. Enquanto isso, imagens de Ben hesitando sair do porão em que estava escondido são alternadas com a ação externa – o protagonista morreria ainda dentro da casa. Em geral, vemos os tiros dos homens serem preparados, atirados e finalizados: o ciclo completo do gesto de levantar, apontar, atirar, abaixar a espingarda e anunciar o acerto verbalmente. O tiro que acerta Ben é assim: preparado por dois homens e comemorado apaticamente após sua execução. A morte do protagonista, porém, é montada sem começo e sem fim, de modo que vemos rapidamente o rosto de Ben sendo lançado para trás, já em movimento, que corta abruptamente para seu corpo em queda. Não temos acesso, a princípio, ao susto que antecede o tiro e nem à imagem de seu corpo morto. O aspecto súbito de sua morte é contrastado com as demais ações do filme, com os gestos calculistas de seus executores e com as mortes lentas e espetaculares que os zumbis realizam. Não é à toa que, por fim, Romero opte por subir os créditos finais sobre imagens fotográficas que mostram detalhes de Ben morto, bem como espingardas em riste e ganchos em punho que, as fotos nos mostram, seriam enfiadas pelos homens brancos em seu corpo para carregá-lo para fora da casa. É só assim que temos tempo para elaborar a morte de Ben. Ela é propositadamente tão mal resolvida quanto a origem ou os motivos que guiam as ações dos zumbis.


Grande parte da potência do filme de Romero, para mim, está precisamente em não resolver ou destrinchar o que muitas leituras do filme entenderam como “metáforas”. Seus zumbis, enfim, não podem ser associados unicamente a uma ideia de alienação, nem a uma metáfora dos espólios da guerra ou abordados como algum tipo de referência específica à violência americana – nenhuma dessas leituras está necessariamente errada, e o filme parece dar abertura para todas elas. Neste sentido, estou de acordo com o pesquisador Steven Shaviro, que afirmou que a angústia e o potencial político do filme de Romero se dá mais nos afetos confusos, na montagem atrapalhada e na indeterminação dos zumbis do que em qualquer esforço analítico que vise esquadrinhar o filme em termos puramente narrativos. Os zumbis são amorais e excessivos, canibalizam sem prazer e sem parar e matam, com um prazer visual desconcertante, os personagens que gritam em pânico exagerado. O que vemos é um desbunde repulsivo e potencialmente prazeroso de mortes, que aciona diversos anseios e afetos do seu tempo e do presente. Ao fim, e entendo isso como um trunfo de Romero, o assassinato súbito de Ben parece mais chocante do que o espetáculo visual gore dos zumbis. Em meu anseio, as imagens estáticas dos homens brancos com ganchos e armas perfurando o sensato e sobrevivente Ben é mais ameaçadora do que os trechos em vídeo das hordas atrapalhadas de mortos-vivos.


NOTAS

¹ A história foi contada tantas vezes, que o site do History Channel, em sua matéria sobre a história dos zumbis, atribui a Romero a popularização dos monstros: https://www.history.com/topics/folklore/history-of-zombies.


² Como faz a crítica revisionista de Steve Rose, do The Guardian, em 2018, ao se referir ao filme como “vital, brutal, críptico e subversivo”, apontando a escolha do ator negro para protagonista como um dos “movimentos mais radicais do filme”: https://www.theguardian.com/film/2018/oct/24/night-living-dead-review-george-romero-horror-1968-classic-ghouls#:~:text=Horror%20films-,Night%20of%20the%20Living%20Dead%20review,vital%2C%20brutal%2C%20cryptic%20and%20subversive&text=The%20grandaddy%20of%20low,that's%20not%20easily%20brushed%20off.


³ Jon Towlson, em ensaio publicado pela organização inglesa BFI, argumenta que o filme faz a transição entre filmes de horror clássicos e modernos, construindo personagens que refazem estereótipos dados ao passo que propõem novos e migrando os monstros do cemitério para o lar e o urbano: https://www2.bfi.org.uk/news-opinion/news-bfi/features/night-living-dead-george-romero.


https://www.omelete.com.br/filmes/noite-dos-mortos-vivos-dominio-publico


Em português o original de George Romero foi lançado como “Despertar dos Mortos”, já o remake de Snyder apareceu como “Madrugada dos Mortos”.


Shaviro aborda a obra de Romero em seu livro The Cinematic Body, lançado originalmente em 1993.


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