O Massacre da Serra Elétrica (1974)

Por Rafael Duarte



O Texas de Tobe Hooper é, possivelmente, o pior lugar do mundo. Caricatura de uma caricatura, o estado é apresentado nos primeiros cinco minutos de O Massacre da Serra Elétrica como um inferno na terra, consistindo em animais mortos, cenários desérticos e estradas desoladas, acompanhados de uma narração infindável de crimes violentos numa rádio local.


Mas o Texas, elaboraria Wim Wenders, não é um estado, mas os Estados Unidos. Não por acaso, um ano após o lançamento de O Massacre da Serra Elétrica, a Guerra do Vietnã chega ao fim. Não por acaso, o caos e o asqueroso reinam num retrato de uma sociedade em colapso. Quando Hooper decide abrir seu longa com um tatu-bola atropelado sob o sol escaldante, ele confirma a intencionalidade do repugnante. Ao avisar o espectador que o filme retrata fatos reais, Hooper não mente.


A premissa do filme é um desenho técnico para centenas de filmes de terror que o sucedem: grupo de jovens, viagem pelo interior, casa abandonada. Apesar de ser considerado o primeiro slasher americano, Massacre possui pouquíssimas cenas realmente sangrentas. Sustentando-se com maestria na ambientação, Hooper constrói um filme extremamente desagradável, enquanto, ao mesmo tempo, tenta (sem sucesso) produzir um filme de classificação livre.


O grupo concorda em ajudar um mochileiro que, evidentemente fora de si, mostra fotos de animais mortos com orgulho, brinca com facas e fere um dos amigos antes de ser expulso da van. Esse momento é um alerta para o que está por vir. O proto-surrealismo de Hooper é reflexo de um Estados Unidos que se percebe, pela primeira vez, como agente de destruição, como Estado violento e imoral.

O desconforto apenas aumenta daí em diante. Com personagens antipáticos e referências constantes ao matadouro da cidade, Massacre é uma experiência desconcertante, criando uma atmosfera que é, normalmente, sem sucesso, emulada até hoje. Leatherface, um dos mais populares vilões de todos os tempos é, em verdade, o mais frágil dos personagens, constantemente atacado por seus familiares, emasculado e criticado, incapaz de defender-se com qualquer meio que não seja a violência.


Em 1955, se inicia a Guerra do Vietnã. Em 1957, os Estados Unidos conhecem Ed Gein. Em 1970, acontece a Crise do Óleo. Em 1972, explode o caso Watergate. A herança da década de 70 é de conflito. A sociedade americana questiona seus próprios valores diante do fim da Guerra do Vietnã. Nesse cenário, um longa que retrata uma família de açougueiros falidos no meio do Texas, com morais deturpadas além de qualquer reconhecimento, fixados em violência e alienados da sociedade fora de sua fazenda é, ao menos, irônica. A figura desconcertante de Leatherface, com sua mistura de significantes masculinos e femininos, com sua incapacidade de verbalização, com sua constante recorrência a armas (claro) obviamente fálicas é uma interessante convergência do que Tobe Hooper busca criticar.


Mas além de um comentário de uma sociedade de conflito, sem identidade própria, que reconhece pela primeira vez seu próprio absurdo (coincidências à parte), O Massacre da Serra Elétrica é um filme de terror sólido, um dos poucos verdadeiros merecedores da classificação icônico. Gunnar Hansen solidifica o personagem Leatherface como um dos mais assustadores por sua imprevisibilidade, e o elenco de atores pouco conhecidos, texanos, possibilita uma credibilidade nem sempre observada em filmes do gênero. Sally, consagrada como a primeira final girl, é, antes de mais nada, absolutamente comum.



Massacre é um ensaio sobre o absurdo, sobre como o grotesco pode ser mundano. No cenário quase pós apocalíptico criado por Hooper, não existem elementos sobrenaturais, nem celebridades, nem arranjos musicais. Os Estados Unidos de Hooper nos anos 70 é composto de ossadas irreconhecíveis, loucura, suor e sangue. Se uma sociedade em colapso inspirou uma obra desse calibre, me pergunto qual seria a América de Hooper em 2020.

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