O oficial e o espião (2020)

Atualizado: Ago 30

Por: André Santa Rosa


O que esperar da arte de figuras problemáticas? É possível separar o autor da sua obra? Essas são questões contemporâneas para tempos de “cancelamento” e consumo consciente, que nem cinéfilos e amantes das artes no geral, muito menos as instituições do ramo, conseguiram respostas. A cineasta argentina Lucrecia Martel, na posição de jurada no Festival de Veneza, disse “eu não separo o homem da arte”, quando a imprensa internacional a questionou sobre comparecer à exibição do longa O oficial e o espião, o novo de Roman Polanski, que estreia hoje nos cinemas brasileiros. Mas até mesmo o próprio homem que tem os dedos apontados para ele no momento, Polanski com seus 86 anos, não parece acreditar em tal separação. Seu novo filme trata de um dos grandes casos de injustiça da França, com uma história contada com maestria, mas que maliciosamente advoga em prol de seu criador.


O filme trata do caso de Alfredo Dreyfus (interpretado por Louis Garrel), capitão do exército francês que, no ano de 1895, foi condenado à prisão na Ilha do Diabo, colônia penal na Guiana Francesa. Em sua sentença, constava o crime de passar informações secretas para militares alemães. Acontece que o episódio que se tornou famoso como Caso Dreyfus é uma das maiores histórias de injustiça da França, sendo considerado um dos grandes erros judiciais, que gerou controvérsia por anos e anos. Mas o verdadeiro protagonista do filme é George Picquart (Jean Dujardin), que aos poucos vai se contagiando pela narrativa e descobrindo pistas. Um filme de suspense, de narrativa sofisticada, ótimas atuações, ritmo lento e verborrágico, no melhor sentido. Mas O oficial e o espião, ao final das contas, parece assombrado pelas intenções do seu próprio autor e seus crimes.


Para entender como Polanski “colocou o dedo na ferida”, vale lembrar que o Caso Dreyfus é tão célebre que rendeu o artigo J’accuse (título original do filme), de Émile Zola, uma carta aberta no jornal L’Aurore para o presidente da França na época, Félix Faure. No texto, o jornalista ataca nominalmente inúmeros oficiais do exército e oficiais de justiça pela condenação de Dreyfus. Foi manchete do jornal, que mesmo com a tiragem de 300 mil exemplares, esgotou-se em poucas horas. O episódio gerou perseguições à imprensa e revolta de multidões, além de uma forte onda de antissemitismo, já que Dreyfus era judeu.


Utilizando da potência de uma narrativa consolidada, Polanski faz da obra seu próprio J’accuse, uma carta aberta que advoga pela sua inocência. O diretor, que já foi um dos mais badalados de Hollywood, celebrado pelos clássicos de O bebê de Rosemary, Chinatown e O pianista, utiliza de seu talento para conduzir uma narrativa ao mesmo tempo que se prega a cruz, usando como manto um filme de ambiência complexa, várias camadas e uma história anti-establishment, de um homem condenado injustamente.


A controvérsia foi tanta que duas das principais instituições de cinema da Europa, o Festival de Veneza e o César, não souberam lidar bem comum filme tão pessoal, sobre uma pessoa problemática, mas que agradou demais tanto a crítica quanto o público. O César, que indicou Polanski a 12 categorias, foi marcado por protestos na porta da premiação, além de cenas virais de atrizes deixando a cerimônia por conta de todas as reverências ao diretor. Ao mesmo tempo que uns argumentam que as indicações da obra se dão simplesmente por sua qualidade, soa hipócrita se pensarmos em como essas mesmas premiações, como o Oscar, fingem que a produção de qualidade de mulheres e pessoas negras não existe. Se o esperado era que Polanski fugisse ao máximo do assunto de seu julgamento, o filme surpreende por ter o tema da justiça e moral como mote. Enquanto o mundo da arte busca respostas para o que fazer com as obras de pessoas problemáticas, Polanski se põe como mártir e monta uma bela armadilha para os que esperam uma resposta fácil.


O caso Polanski


Em 1977, Roman Polanski foi condenado por estuprar Samantha Geimer, uma menina de 13 anos. Ele cumpriu parte da pena, foi liberado, mas fugiu para a França. Desde então, existe um mandado judicial da Califórnia contra ele. Outra mulher violentada pelo diretor foi a modelo Valentine Monnier, que relatou ter sido vítima aos 18 anos. Várias outras mulheres já o denunciaram por violência, inclusive outras menores de idade. Com a explosão do #MeToo, os crimes do cineasta tiveram novas repercussões e gerou ondas de protestos. Na cerimônia do César, grupos feministas protestaram no local. O oficial e o espião recebeu 12 indicações e faturou três prêmios na ocasião: figurino, roteiro e direção. A principal porta-voz da campanha contra o diretor, a atriz Adèle Haenel, deixou a cerimônia. Polanski e os integrantes da equipe do filme não compareceram.

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