Bacurau (2019) | O Sertão que se redescobre mundo e povo

Atualizado: Set 2

Alice Mota

André Santa Rosa



“Se for, vá na paz”, diz a placa que anuncia 17km de terra batida até o município de Bacurau. No fim do filme, o aviso cordial se transmuta em ironia com um tom de ameaça. Afinal, as terras nordestinas, em nossos afetos e imaginários, articulam na ambiguidade tanto os pacatos e humildes sertanejos, como o universo valente e aguerrido do cangaço.


No filme dirigido pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vemos corporificado em tela um retrato sincero de um Brasil sob a ótica de um western lisérgico no sertão do nordeste. Logo em sua cena de abertura, um take da terra vista do espaço, encaramos essa obra que parece um extraterrestre dentro do cinema pernambucano, ao mesmo tempo que reitera e articula-se com o lugar de criação, política e criatividade que as produções locais demarcaram. “Daqui há alguns anos, no Oeste Pernambucano” confabula o filme que se assume como fantástico, fortemente influenciados pelos norte-americanos e brasileiros do meio do século XX como Era uma vez no Oeste (1968), Sangue de Heróis (1948), Deus e o Diabo na terra do sol (1964) e O assalto à 13ºDP (1976).


Após a morte de Carmelita (Lia de Itamaracá), figura matriarcal para uma cidade que parece operar sob essa lógica, nós somos apresentados à atmosfera interiorana que capta as dinâmicas de vivência de Bacurau, seus lampejos de Macondo nordestina, ao ritmo que respeita o estilo de vida como pertencente à cultura local e a localiza nesse modo. Certos aspectos da vida em Bacurau não são necessariamente codificações ou formas de alegoria para o momento político do país, mas as opções narrativas do filme por si só parecem delinear o tom político do longa num encadeamento de mistérios na própria comunidade: os psicotrópicos, a cela subterrânea contada a passos, um senso de comunhão que se afasta do moralismo na relação com Lunga e Pacote, personagens que são criminosos procurados fora de Bacurau, Carmelita como imagem etérea, presença constante da cidade. Talvez aí esteja um dos encantos em Bacurau: tudo aquilo que não nos é contado. A sensação é da criação de texturas e camadas, em um universo que mesmo que já nós componha, soa muito mais como uma redescoberta. Não só um lugar, mas um corpo em que se localiza um sotaque, nas tragédias e no luto áspero, Bacurau é o microcosmo nordestino que se transmuta e se redescobre como uma identidade, mundo e um povo.


Além de Sônia Braga e Udo Kier, cujas atuações são carregadas de uma energia indomável, destaque para Silvero Pereira que incorpora Lunga. O personagem é uma espécie de Lampião e Zé pequeno, ao mesmo tempo, que incorpora gestos queer. Um sopro de qualidade subversiva sobre o cangaceiro, que se remonta em um fascínio quase sensual. Lunga é o bandido que chega para salvar Bacurau, uma espécie de anti-herói do sertão; não é um herói brasileiro, e sim herói nordestino, que não se estabelece a partir das legalidades, mas em uma instância da valorização racional da sobrevivência: “Eu não tô puto não! Eu to é com fome!”.


Em Bacurau emerge uma política de resistência, vinda da própria ideia do lugar que persiste. Um lugar para se sobreviver, que pela recepção do público se tornou um verdadeiro lampejo de uma política-de-auto-estima nordestina. É o voto pela sobrevivência, pela memória e recusa, que partem e sobrevivem aqui. A cena quase didática entre os paulistas e os americanos, parece um discurso essencial que carrega um tom de sátira levemente amargo e um pouco exagerada.


Saem do museu as armas e deitados ao chão da escola os moradores encontram proteção. Que se lave o chão sujo de sangue, mas a mancha de mão na parede é para deixar, manda a coordenadora do Museu Histórico de Bacurau. O museu, subjugado com desinteresse pelos estrangeiros é para os locais o instrumento do clímax jacobino: ali estão as armas, que de algum tempo, pertenceram aos cangaceiros. Uma das figuras mais potentes do imaginário nordestino é evocada com afeto de vitalidade no filme. O cangaço é entrecortado por uma agência essencial, a do banditismo de classe. No payback sanguinolento digno de um blockbuster decolonial brasileiro, somos arrebatados por cabeças decepadas, e expostas em praça pública tal qual Lampião e seu grupo. Dessa vez, não há nas imagens rostos familiares e conterrâneos. Ver os estrangeiros e seu arquétipos eurocêntricos reencenando um papel que já foi nosso, é por demais justo na fábula de vingança que é Bacurau. É uma vertigem histórica rasurada, sendo que dessa vez nós vencemos.


Nota: ★★★★

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