Piedade (2020) | A mesma fábula do fim das utopias

Por André Santa Rosa

25/06/2020

Em 2012, quando se tornou pública a questão da construção de torres de luxo no Cais José Estelita, o cineasta Cláudio Assis foi até ao governador Eduardo Campos entregar um manifesto contra o projeto urbanístico. Possivelmente o episódio do Ocupe Estelita foi uma espécie de último estandarte, a última utopia de uma esquerda recifense. Depois disso foram só derrocadas para o país: golpe de 2016, reformas do governo Temer e ascensão da extrema-direita do governo Bolsonaro. Mas foi a bandeira do Ocupe Estelita que definitivamente marcou a ferro a geração de retomada cinema pernambucano - uma metáfora pra nossa realidade, uma espécie de fantasma, um vício aprisionante por uma forma unitária de contar essas mesmas fábulas. É claro, com algumas exceções, vemos um cinema interessado em críticas sociais palatáveis para classe média, uma espécie de apego saudosista a um território-trincheira, espaço de luta romântico como demarcação de resistência. Em Piedade, novo longa de Cláudio Assis, nada disso fica de fora.


O longa começou a ser rodado em janeiro de 2017, mas teve problemas para ser finalizado, principalmente, por conta do AVC que acometeu Cláudio na pós-produção. Foi filmado na cidade do Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife, de frente para o Porto de Suape. Nessa paisagem que oscila entre a força do capital e a natureza exuberante, moram Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e o filho, Omar (Irandhir Santos). Os dois estão a frente de um bar na Praia da Saudade, que outrora era ponto turístico e local do cotidiano de pescadores, mas que, após os impactos ambientais causados pelo porto, não podem mais pescar. Por conta da poluição e dos tubarões, de forma irônica e cruel, são obrigados a comprar o próprio peixe. O ponto se tornou, então, objeto de interesse de Aurélio (Matheus Nachtergaele), executivo da empresa Petrogreen, que pretendia comprar o lugar e indenizar os moradores. De forma genérica, a sinopse do filme parece com tantos outros – Açúcar, Bacurau e Aquarius são os exemplos mais gritantes –, e é justamente nessa instância genérica que seu enredo se mantém.


A história também nos apresenta Sandro (Cauã Reymond), proprietário de um cinema pornô em Piedade, que é um irmão perdido de Omar, inspirado na relação de Cláudio com o irmão que procurou durante boa parte de sua vida. Mas não vemos essa pessoalidade do personagem, que parece sempre em descompasso com as atuações de Irandhir. A relação dele com o Aurélio é toda baseada em uma alteridade, que é tão esvaziada quanto a entrega delas. No geral, toda a relação do filme com o sexo é firmada apenas numa espécie de desentendimento ou desconforto, nunca do erotismo.

Talvez sua melhor qualidade é que, mais do que qualquer outro trabalho de Cláudio, Piedade é um filme com muitas falas, o que deixa espaço para os atores respirarem e inventarem em cima do texto. Mas isso causa um estranhamento e nos faz questionar a opção por um filme com tantos atores globais, o que não necessariamente é uma qualidade do longa – na verdade, chega a ser estranho se colocarmos ao lado de uma produção recente muito mais plural, com um elenco local. É algo que, ao mesmo tempo que nos faz pensar em uma consolidação e força midiática desse cinema, também deixa dúvidas sobre qual lugar está sendo dado os atores locais.

Cláudio Assis e Hilton Lacerda, respectivamente diretor e roteirista do filme, são frutos de uma geração de 1985, que proporcionou para o estado de Pernambuco um vislumbre de retomada, mesmo que lenta, da produção profissional. O filme Baile perfumado (1996), dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, é visto como um marco zero desse momento. Mas o longa remete diretamente às atividades do Vanretrô, formado na época por, além dois quatro já citados, por nomes como Adelina Pontual e Samuel Paiva. O grupo que edificou a cena, agora assiste ao desmonte das conquistas. Não é uma questão simplesmente geracional, mas parece demarcar que para esse grupo de cineastas estamos estacionados em um mesma questão. Enquanto isso, todos nós sabemos que hoje o cinema pernambucano trata de questões decoloniais, atravessadas por várias políticas e até a política das próprias ficcionalizações de uma forma muito mais ampla e interessada no momento atual. Mas o que podemos confabular é como uma parte de um de um cinema que se expandiu tanto nos últimos anos consegue repetir suas narrativas de forma tão inconsciente. É limitador.

Em Piedade, num deslocamento de uma paisagem urbana, como em Amarelo manga (2002) e Febre do rato (2012), somos apresentados a um vilarejo, um cinema e uma rede de relações que são trincheiras para esses personagens. A cidade é uma espécie de berço e fim da utopia, com seus contornos saudosistas. O longa evidencia também um ponto de culminação para esse cineasta que ajudou a fundar uma cena. É a cristalização ou consolidação do cinema pernambucano como um arranjo de temáticas e estéticas. O que, ao passo que firma sua proliferação, pode ser perigoso por repetir convenções criadas pela própria cena, a qual, mais do que nunca, apresenta uma produção bastante diversa. Ao fim do filme, é difícil não lembrar também do último roteiro de Hilton Lacerda, Fim de festa (2020), que de algum modo falar dessa fratura “ressacada”, saudosista e pessimista das utopias de seus personagens. Mas sempre que se conta a mesma história, repetidamente, de forma tão unitária e automática, ela perde mais sua força.

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