[retrospectiva] Os 10 melhores filmes de 2020

Sertânia

(André Santa Rosa)

Sertânia é um longa poderoso, feito aos 82 de Geraldo Sarno, que cria uma relação incrível entre a memória pessoal e coletiva. Após poucos minutos de abertura, na aridez e vegetação rasteira, Sertânia nos apresenta as vertigens de um homem, que lentamente assistimos desfalecer. Como um oroboro, seu ponto de partida é seu fim. Sertânia é um dos exercícios de tempo mais primorosos nos últimos anos do cinema brasileiro, em que somos espectadores de um homem a lembrar e esquecer, lentamente viver e morrer.


Partindo da miragem do fim de Antão, em um belo uso da sobreposição e dos movimentos de câmera, o filme nos convida a reimaginar o Sertão. É esse delírio fugaz, construído a partir dos jogos de claro e escuro da fotografia em preto e branco, como um tipo de fixação da xilogravura. Nessa construção visual interessantíssima estão algumas imagens que remontam, ainda de maneira amorfa, os mitos fundadores desta República. São imagens vorazes, como já muito apontado de contornos cinemanovistas, lembram também A hora e a vez de Augusto Matraga, com os paradoxos da mente se entrelaçando com a própria história brasileira.



Retrato de uma jovem em chamas

(Alice Mota)

Na França do século XVIII, Marianne recebe a tarefa de pintar Heloise, que se recusa a posar para um quadro, com as imagens guardadas na memória ao longo dos dias que a acompanha. No filme de Céline Sciamma é exercido um fascínio sobre uma concepção de belo que persiste do início ao fim, num olhar consciente e contemplativo sobre as paisagens, sobre o rosto de Heloise, sobre o erotismo do filme. Um gesto do olhar consciente para explorar a sensibilidade da paixão, que parece extravasar a cada enquadramento, reiterando a presença do belo sob formas distintas.




First Cow

(Felipe André Silva)

Ainda que com muitos ótimos exemplares entre um e outro, me parece que desde o épico 'Margaret', de Kenneth Lonergan, não havia um exemplar tão excepcional de meditação sobre o 'ser norte-americano' quanto este 'First Cow', de Kelly Reichardt. Indubitavelmente a maior cineasta americana em atividade, Reichardt sempre nutriu um apreço particular pela observação dilatada e cuidadosa do tempo que passa, colocando esse, de certa forma, como o grande protagonista de seus pequenos contos. Aqui, retornando à seara do filme de época, ela exercita mais uma vez sua curiosa habilidade de criar afetividade e suspense na mesma medida, a partir de disparadores tão pouco usuais como a amizade entre um cozinheiro e um fugitivo, de onde nasce um curioso negócio culinário. A fotografia é perfeitamente pensada, mas usa as formas e tons da natureza em suas tintas, o som é tão acolhedor e potencialmente ameaçador quanto o barulho do vento nas árvores, e por mais que a vida seja lenta e serena, tudo pode acontecer.



Undine

(Manu Falcão)

No decorrer de sua obra, Christian Petzold debruçou-se acerca de encontros amorosos fugazes, condenados ao fim. Arriscar-se-ia, talvez, chamar ao cerne das imagens registradas pelo realizador alemão, o Cinema – paisagens, temporalidades, e trocas de convívio efêmeras, fadadas ao desaparecimento. Tal como em Phoenix (2014), no qual os personagens empenham-se em recriar um senso de identidade após a Segunda Guerra Mundial, seus protagonistas tendem a abraçar o idílico; através de tais encontros, há a crença em uma potência estabilizadora, na qual as turbulências de seus tempos atenuam-se. Em Undine (2020), seu último trabalho, o mais excêntrico e diferente dos anteriores, esquadrinha-se, também, a condição humana diante de um mundo em movimento; muito embora, Petzold recorra, manifestamente, aos artifícios melodramáticos que espreitam as próprias origens destes. Se, à exemplo de Em Trânsito (2018), filme que antecede Undine, o realizador remenda o curso do tempo, materializando pontes entre esferas invisíveis, não apenas às situações de trágicos desencontros, mas às rachaduras amiudadas nos espaços intermediários onde ocorrem o amor e a ruína, em Undine, ele o faz trazendo-as ao presente – o substrato concreto no qual os mitos, carregados de fantasmagorias, são tecidos em uma continuidade perene. Deste modo, adiante de uma sensibilidade histórica, e reivindicando algo de metafísico, puramente mitológico, a forma de Undine corporifica-se em um belo misticismo, conquanto melancólico. Ao observar ora o progresso de uma Berlim “não-reconciliada” com o passado, ora o romance de duas pessoas que a residem – uma delas sendo uma criatura mitológica –, lembra-se, em tese, do filme Não Reconciliados (1964), do casal Straub-Huillet. Os cineastas filmam a mesma cidade sob o prisma das consequências de sua reconstrução industrial incessante, e, inevitavelmente, do esforço cansado pela manutenção existencial, que acaba por levar relações afetivas à fadiga. O que os Straub apontam, tão somente, é que ali reverberam os ecos de sua história; possibilidades dissonantes, mas que puxam-se uma à outra, por necessidade. O caos e a paz; o amor e a ruína. Questiona-se, então, a própria ideia de passado: como conciliar-se com este, se algo terrivelmente destrutivo permanece na estrutura sensível de uma sociedade? Como adaptar-se ao futuro sob o peso de um presente que volve-se à eternidade? Tais questões pairam, também, no cinema de Christian Petzold; mas é em Undine, seu único conto de fadas, e, possivelmente, o mais belo de seus filmes, que culminam os esforços para respondê-las. Afinal, trata-se de um filme que reconhece o poço do qual, milenarmente, bebe-se e aprende-se a conviver com as "não-reconciliações": como frequentemente dizia o eloquente roteirista Rod Sterling, entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos.


Red Post on Escher Street

(João Luiz)

O filme de Sion Sono parte da busca do diretor Kobayashi pelo elenco do seu novo filme, Mask. Nesse processo, aparecem personagens de diferentes setores da sociedade para tentar conquistar algum dos papéis principais. Tecnicamente impressionante, o filme brinca com os sons, com as cores, com os gritos catárticos para criar uma atmosfera que reflete bem uma certa rebeldia e tormenta de Kobayashi.





Never rarely sometimes always

(Rafaella Rosado)

Sem depender de discursos verborrágicos para destrinchar aquilo que não precisa ser dito, o novo filme de Eliza Hittman explora a temática do aborto e o subtexto do machismo através dos sentimentos que orbitam a juventude, a amizade e o feminino. O filme conta a jornada de Autumn, que decide seguir com um aborto aos 17 anos, e Skylar, sua prima, que a acompanha durante todo o processo.



Canto dos Ossos

(Rostand Thiago)

Uma pérola ensanguentada do contemporâneo cinema cearense, Canto dos Ossos remodelou com tanta força noções de encanto e fantasia nos festivais pelos quais percorreu em 2020. Um filme que não se encerra em nenhuma de suas propostas, seja de alegoria, de trabalho com gênero ou de comentário político, formalmente rigoroso e livre.


Um filme sobre corpos poderosos que se energizam entre si, pela festa, pelo sexo e pelo sangue, para lidar com um entorno que não enxerga seus poderes, apenas sua estranheza como objeto de eliminação. Embriagante a presença de Maricota em cena. Vampiros se banhando em um açude é algo que eu nem sabia da falta que fazia em ser visto, mas fazia.




Emma

(Daniel de Andrade)

Emma, de Autumn de Wilde, não é o melhor filme do ano. Ele reúne, porém, os melhores estilistas dos filmes de época ingleses desde que eles voltaram para mercados internacionais. As coreografias elaboradas (dentro e fora dos bailes), o figurino extravagante e moderno, a fotografia colorida e as atuações ágeis hiperboliza os melhores aspectos das adaptações de Jane Austen e valorizam seu caráter de paródia, mas sem perder o fascínio pelo estilo e pelas convenções do gênero. Nesse sentido, é um filme calcado no prazer - que se é espetacular, não tem como ser vazio.


(Vale uma atenção especial para o momento em que Emma, belamente interpretada por Anya Taylor-Joy, perde seus gestos corteses e coreográficos, sangrando incontrolavelmente pelo nariz - mostrando que a densidade, aqui, se dá pelo estilo hiperbólico).



O Homem invisível

(Rafael Duarte)

O remake lançado em 2020 traz consigo as atualizações próprias àquilo que é colocado em discussão no seu tempo. Após conseguir escapar de um relacionamento abusivo, Cecilia Kass recebe a notícia que seu ex marido está morto, até começar a questionar a própria sanidade com a sua presença invisível. Além de ter como principal subtexto o relacionamento abusivo, o homem invisível de 2020 não se ancora no sobrenatural, no bizarro – o monstro é um homem possessivo, real, rico, visível, seu principal recurso é a tecnologia.



Borat: Fita de Cinema Seguinte

(Renatto Mendonça)

A película subsequente das incursões do repórter cazaque Borat na AMÉRICA estrelou com destaque neste ano. Sacha Baron Cohen e sua coragem mais uma vez nos proporcionaram torrentes de críticas ácidas e muita diversão em seu recente mockumentary. Eu não lembro a última vez que havia gargalhado tanto com um filme e este, com seu humor despudorado e audacioso (e ao mesmo tempo muito, muito engenhoso), me alegrou neste ano tão angustiante. E mais, a graça estava implicada justamente em uma fração das desgraças que estamos atravessando nessa supernova de momentos históricos. Duplo mérito. Um filme com certos dilemas morais, entretanto muito exitoso. Ri muito, às vezes com a mão na consciência. No fim das contas, a catarse foi certeira.


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