So Pretty (2019) | Um beijo gentil do cinema

Por Daniel de Andrade Lima. Editado por Alice Mota.

08/11/2019


“Este filme conta sobre quatro pessoas jovens tentando organizar seu amor. O problema é que seu amor já é organizado”, diz Erika (interpretada por Rachika Samarth), lendo um roteiro por um microfone, enquadrada pela câmera e dirigindo o olhar para fora da tela. “Seu amor é organizado em exclusividade, autodefesa e pelo estado da vida em casal”. A cena, como outras de So Pretty (2019), de Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli, consiste em uma leitura metateatral, do livro-roteiro And when the prince danced with the coachman, they were so pretty that the whole court swooned. A utopian film, do artista berlinense Ronald M. Schernikau, a partir do qual Dunn Rovinelli anunciadamente se inspira. A fala de Erika, para além de um anúncio sobre o mote do próprio filme, parece nos convidar também a uma maneira de olhar que nos encaminha para reconhecer os problemas que, gentilmente e de maneira pouco sublinhada, a obra nos viria a apresentar.


Em termos narrativos, So Pretty se inicia com a chegada de Tonia (interpretada pela própria Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli) a Nova York, onde se hospeda na casa de Franz (Thomas Love), que parece dividir o apartamento com um grupo de pessoas. A partir de planos longos e, em grande parte, estáticos, vemos essas personagens interagirem: em um plano na cozinha, Tonia se apresenta para o grupo e, por alguns minutos, a vemos gesticular, interagindo com Erika. Ao fundo, Franz interage com uma outra personagem e, repartidas pelo extracampo, duas outras pessoas parecem dialogar. Em poucos minutos – e com áudios de conversas quase indistinguíveis entre si – as dinâmicas se modificam sutilmente. Tônia troca o foco de sua interação, Franz se move para se aproximar de um outro pequeno grupo e um novo arranjo se organiza. Conhecemos cada personagem, afinal, a partir da maneira como interage com as outras – a dois e em grupo.


É a partir desse fluxo de rearranjar relações – em casais e em grupos – que So Pretty nos convida a acompanhar (e, em alguns momentos, quase a testemunhar) o cotidiano da pequena comunidade queer. Conhecemos cada personagem pelas redes afetivas, pelos vínculos maternais, românticos, sexuais, de companheirismo. É também, assim, que gênero se faz e desfaz no filme: pelos pronomes utilizados para se referir a cada personagem, mas, principalmente, pela maneira como cada sujeito dá conta de si, por como agem, por como se colocam no mundo e para elas mesmas, pelas peças de roupas que optam por vestir na própria nudez. É a partir daí que cada personagem consegue, inclusive, montar sua própria autonomia, ao invés de ser simplesmente reconhecida pelo pertencimento ao grupo. Os desconfortos aparecem aos poucos e se manifestam em gestos simples constituídos pelo dispositivo cinematográfico (na força com que colocam os pratos à mesa, nos silêncios prolongados), mas também nas ausências e presenças (quem vai à festa? Quem deixa de ir ao protesto? Como aparecem os corpos não-brancos?).


Os espaços parecem centrais para a construção da cotidianidade no filme. Temos acesso a um parque – em que uma pequena estrutura marca a leitura de roteiro –, às calçadas das longas caminhadas dialogadas, às estruturas privadas das casas e festas. Quarto e rua parecem ter a mesma importância e nos mostram diferentes maneiras do “encenar a si mesmo”; se na rua é o fluxo que marca os trânsitos, nos quartos parece ser a calma, a contenção tranquila que produz os corpos. Aqui, na cama, entre beijos e carícias, as personagens se tornam corpos-sujeitos-monumentos, banhados pela luz, permanecendo no tempo, se arrastando em diálogos, se fundindo à fotografia, à escultura e à força da imagem.


Uma cena em particular permanece na minha mente: o grupo se reúne para assistir uma performance visual e musical de Erika. A câmera se move, recuando gentilmente, nos revelando mais e mais do público, compondo as silhuetas das personagens que, agora, conhecemos bem. Cada pessoa se move, se senta, se aproxima e se afasta das outras. As silhuetas entram e saem de campo, apresentam-se esculturalmente. A tela, se afastando cada vez mais, nos leva a reconhecê-las de maneiras diversas: em casais, em grupos, como um todo. Talvez um dos maiores trunfos do filme seja exatamente o de apelar à beleza sem parecer forçosamente pretensioso; é, talvez, uma das poucas vezes que pretty me venha a cabeça como algo que descreve uma experiência positiva, sem condescendência, sem pessimismo. Como sugere o título do livro de Schernikau, tão bonito que fez a corte desmaiar.

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