The Lighthouse (2019) | Violência e desejo no conto do farol

Atualizado: Ago 30

Por André Santa Rosa | Editado por Alice Mota.

Publicado em 07/11/2019.



"A mais antiga e forte emoção da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e forte de medo é o medo do desconhecido”, dizia H.P. Lovecraft. Através desse aceno à poética literária, se edifica a atmosfera densa, sombria e visceral de The Lighthouse (2019). O conto perturbador de Robert Eggers, diretor de A Bruxa (2016), coloca dois homens, Tom Wake and Ephraim Winslow (interpretados por Willem Dafoe e Robert Pattinson), para se digladiarem na arena da loucura do exílio, imersos em uma tempestade nublada do desejo e violência.


The Lighthouse (2019) apresenta um texto sofisticado, com diálogos vertiginosos, que ecoam uma camada muito literária na escrita do filme. Willem Dafoe é um faroleiro, enquanto Robert Pattinson interpreta o faz-tudo, subordinado, que tem que dar conta da manutenção do farol – o que rende broncas homéricas, quase em uma espécie de poesia spoken-words à beira do caos de suas mentes. Não só na poética lovecraftiana, mas também em seu final trágico grego e na reencenação do mito de Prometheus. A luz do farol, no topo da hierarquia daquela estrutura fálica, é desejada obsessivamente pelos dois homens imersos na escuridão. E imersos em suas disputas particulares pelo lugar do gozo masculino e dominação do território. Essa luz, o fogo roubado do Olimpo, é um mistério de iluminações poderosas. Por que não ser, também, a luz ontológica do gesto cinematográfico?


A visceralidade das atuações, que progride no caos e no ruído da mente dos protagonistas, aciona um repertório de imagens tão visceral quanto. Essas encenações estão inseridas em uma dinâmica espacial muito teatral, o que aproxima mais da tragédia, ao ponto das tensões corporais e verborrágicas serem o ponto alto de um filme com grande entrega.


Uma imagem clássica evocada pelo filme é A fortuna. Assim como a lua é cheia de fases, em um eterno diminuir ou crescer, o farol ilumina e se apaga em uma tempestuosa vertigem de sorte e azar. A roda virou, os ventos se alteraram e trouxeram a ruína dos homens. Essa mutabilidade na fé de azar ou sorte no destino é a força que emana todo o caos da obra, que tensiona o mais lúcido dos homens ao delírio.


Muitos realizadores ouvem música para produzir seus projetos, mas Robert Eggers ouvia barulhos de tempestade, como disse em entrevista a IndieWire. Com maestria o diretor expõe o corpo em carne viva, a masculinidade de dois homens que entram em delírio ao se entregarem à força dos próprios desejos. Em um grito, que se transmuta em ruído, somos apresentados a seu fim apoteótico, digno da violência natural das grandes e imprevisíveis tempestades.

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