Toy Story 4 | Atualizando a Inovação

Atualizado: 11 de Jul de 2019

Por Cesar Castanha*

10 de julho de 2019.



Em 1995, o primeiro Toy Story nos propunha uma nova relação com o cinema animado. Por um lado, os brinquedos apareciam como um novo conjunto de personagens do cinema infantil mainstream, uma alternativa ontológica aos personagens de contos de fada e animais não humanos que se consolidaram no gênero desde 1950; por outro, este é o primeiro filme inteiramente realizado com ferramentas de computação gráfica a ser distribuído no grande circuito de cinema. Essas duas distinções não surgem por acaso em um mesmo produto: qual é a melhor forma de nos apresentar a um nova forma visual se não pela criação de um universo afetivo (o dos brinquedos) que justifique essa ferramenta fílmica? Ao reconfigurar a produção da imagem animada, a criação do filme repensa o que essa imagem materializa.


Nas décadas que seguiram o lançamento do filme, a Pixar, que o produziu, consolidou-se como o estúdio de animação a receber as mais frequentes aclamações da crítica, incluindo metade de todos os Oscars de Melhor Filme de Animação concedidos desde a criação dessa categoria (em 2001). Os elogios mais recorrentes à Pixar reiteram o que vimos acontecer ainda em Toy Story: a Pixar é um estúdio de sofisticação técnica, aperfeiçoando a qualidade visual de seus filmes a cada novo projeto; e as criações da Pixar são tão originais quanto diversas, no que seus personagens variam entre brinquedos, monstros, a biodiversidade marinha, super-heróis, carros e robôs isolados em um planeta cheio de lixo.


A cada novo filme, com um conjunto crescente de exceções desde 2010, a Pixar reivindica essa dupla possibilidade criativa. Toy Story 4 nos mantém dentro do âmbito dessa reivindicação discursiva: vemos circular na internet vídeos e gifs que comparam a animação deste à do primeiro filme. Agora, o que um dia foi inovador já aparece como precário, e o novo filme surge como evidência do contínuo aperfeiçoamento visual das produções do estúdio. Também podemos perceber, nesse mesmo sentido, os modos como o estúdio reivindica a continuidade da sua inovação narrativa. Enquanto filmes como Divertida Mente se esforçam para continuar ampliando o leque ontológico de seus personagem, existe também uma atualização política na atenção dada a personagens como a Mulher Elástico, em Os Incríveis 2, e Betty/Bo Peep, em Toy Story 4.


Quando, no entanto, assistimos Toy Story 4, estamos mesmo diante dessa inovação continuada? Qualquer resposta para essa pergunta pode aparecer até de maneira óbvia: sim, porque estamos diante de uma inovação cuidadosamente encenada; ou não, porque essa inovação é historicamente produzida e localizada, porque está fora do alcance do estúdio garantir, por si mesmo, que seus filmes apareçam e sejam distribuídos dessa forma. Toy Story 4, assim, abre uma caixa preta do discurso da Pixar sobre si mesma ao trazer adiante as diferenças entre o primeiro filme e esse, o “filme novo”.


Um “filme novo”, porém, pode ser a melhor maneira como descrevemos Toy Story 4, um filme que é realizado no próprio exercício de atualização. Não quero aqui dar uma valorização moral (positiva ou negativa) para esse tipo de empreitada. Estamos acostumados com continuações cinematográficas produzindo novas personagens, fazendo uso de novas tecnologias de produção e projeção, atualizando as perspectivas morais do produto. Mas o que acontece, no entanto, quando é preciso inovar grandemente a grande inovação? O quão perto a Pixar poderia chegar de tal ambição e o quão distante ela de fato chega?


Toy Story 4 é um filme que se produz a partir desses questionamentos e de perguntas similares: tais como “O que mais poderíamos ver desses personagens depois do fim do terceiro filme?” ou “É mesmo interessante investir em uma continuidade dessa história?” e, lógico, “Pode um quarto filme se equiparar à aclamada trilogia?”. O argumento do filme, evidentemente, é de que sempre há espaço para esse exercício bem realizado de atualização. E, em certo sentido, eu concordo: gosto particularmente de como o filme é capaz de articular, para os personagens, um mundo após Andy, a criança que cresceu; e discordo de que o filme seria um epílogo pra trilogia (se tem uma coisa que Toy Story 4 nos mostra, afinal, é que o mundo desses personagens é amplo). Mas há um limite do que o filme pode responder sobre si mesmo e o contexto em que surge, e essas perguntas vão seguir adiante para o próximo projeto da Pixar. Seguimos o seu rastro.



* Cesar é jornalista e faz doutorado na UFPE. É crítico cultural e escreve para o seu blog, o Milos Morpha.

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