Varda por Agnès (2019) | A Imagem Etérea da Despedida de Agnès Varda

Atualizado: Ago 30

Por André Santa Rosa.

15 de maio de 2019.



Varda por Agnès (2019), o último filme da diretora veterana da sétima arte, ativista feminista e artista visual, é também reverência a um legado: toda uma vida que se transmuta em arte, e arte que só poderia se transmutar em vida. Uma despedida extremamente honesta, afetiva e inspiradora, que qualquer artista sonharia em ter.


O filme é evidência de como da vida se fizeram sonhos ou como sonhos são sonhados com voracidade. O filme apresenta uma jornada artística extremamente humana e íntima, marcada anseio de estar no mundo, se encantar com a beleza, permitir-se ser muitas outras coisas e estar entre as coisas. “Nada é banal se você filma as pessoas com empatia e amor.”


Poderia ser um filme “só” sobre Varda - como ele ameaça ser logo de início - mas o que nos toma ao final da projeção é o vislumbre de um monumento sobre a arte. Sobre nossos ídolos, ícones, contraculturas, narrativas; sobre o local em que, por costume, localizamos nossos corações. A todo momento o filme está sendo entrecortado por afetos, personagens e a própria iluminação do fazer arte. É tudo sobre a incrível pessoa e artista Agnès Varda, mas é também sobre as coisas ao redor dela. E nesse sentido o documentário emula bem uma característica marcante de Varda: a verve documental de seus filmes, seu interesse pelas pessoas e pelo mundo que acontece ao seu redor.


Quanto ao seu formato, de cara não é tão interessante, apresentado ao estilo monólogo meio “Ted Talk”, com Agnès revisitando e comentando sua filmografia. A segunda parte, foca mais na carreira da artista em seus momentos mais ligados artes visuais e fotografia, mostrando um pouco mais da personalidade e ideias de Agnès em projetos mais recentes. Destaques para a videoinstalação do túmulo de seu gatinho Zgougou e a Potatutopia, que são momentos do documentário em que é mostrado muita candura e espontaneidade da artista. Em meio a um grupo de crianças, Agnès Varda pergunta a uma delas o que achou da videoinstalação do túmulo de seu gatinho Zgougou, um dos garotos pensa e responde: “Eu não fui a muitos túmulos, mas esse é diferente. É um cemitério feliz e cheio de cores bonitas.” A resposta inocente parece ser próprio ímpeto de criação da obra: do luto, sentir algo e fazer disso algum encanto.


Por fim, a vida e o cinema têm hora, e é hora de se despedir de Agnès Varda, ícone Nouvelle Vague – o movimento que hoje talvez diga muito sobre uma materialidade do afeto, da política, do amor e de paixões, que soam por demais esvoaçantes e imateriais. Mas diz também muito sobre a vida e jornada de Agnès. Ela nem sumiria abruptamente, nem por uma imagem still que nos fitasse friamente por alguns segundos. Em meio aos grãos de areia de uma praia, a efígie da artista vai sumindo ao poucos, de forma volátil, etérea e sublime. Agnès Varda vai desaparecendo aos poucos, só para doer menos.

©2019 by Notas críticas